‘Canetas emagrecedoras’ exigem cautela na infância e adolescência
Sociedade Brasileira de Pediatria defende uso criterioso de medicamentos e alerta para riscos da automedicação e de produtos clandestinos
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 07 de setembro de 2026
Sociedade Brasileira de Pediatria defende uso criterioso de medicamentos e alerta para riscos da automedicação e de produtos clandestinos

A SBP (Sociedade Brasileira de Pediatria) divulgou nota de alerta sobre o uso das chamadas canetas emagrecedoras por crianças e adolescentes e reforçou que os medicamentos não devem ser tratados como solução estética para perda de peso. Embora algumas dessas substâncias tenham indicação para o tratamento da obesidade na faixa pediátrica, a entidade ressalta que a prescrição depende de critérios específicos relacionados à idade, ao diagnóstico e às características de cada paciente.
A preocupação da SBP é a banalização do uso dos medicamentos, que ganhou impulso com a popularização das canetas nas redes sociais. A endocrinologista pediátrica Mariana Schmidt Evangelista concorda que o problema não está nas medicações em si, mas na utilização indiscriminada de produtos desenvolvidos para o tratamento de doenças crônicas como obesidade e diabetes tipo 2.
“A discussão da nota não é se pode ou não usar. A questão é para qual paciente, com qual diagnóstico, qual o melhor medicamento e qual vai ser o plano de acompanhamento”, explica Mariana.
A SBP recomenda, inclusive, que a expressão canetas emagrecedoras seja substituída por medicamentos para tratar a obesidade, com o objetivo de reforçar que é uma doença crônica e multifatorial e que o objetivo do tratamento é melhorar a saúde e a qualidade de vida, e não modificar a aparência.
Indicações e faixas etárias
Até agosto de 2026, três medicamentos da classe das incretinas têm aprovação da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) para aplicação em pacientes pediátricos no Brasil. Apesar de serem aplicados por meio de canetas, eles não têm as mesmas indicações.
A liraglutida e a semaglutida podem ser utilizadas no tratamento do diabetes tipo 2 em crianças a partir dos 10 anos e no tratamento da obesidade em adolescentes a partir dos 12 anos, com peso superior a 60 quilos. A diferença é que, enquanto o primeiro medicamento é de aplicação diária, o segundo é de uso semanal.
Já a tirzepatida, que combina a ação dos hormônios GLP-1 e GIP, o que a torna “mais potente”, tem indicação pediátrica para o diabetes tipo 2 a partir dos 10 anos, mas não há indicação aprovada para tratamento da obesidade na faixa pediátrica. A aplicação também é semanal.
Entretanto, Mariana ressalta que a utilização para obesidade não significa uma autorização para emagrecimento rápido. No caso das medicações indicadas para a doença, a dose deve ser individualizada e iniciada de forma baixa, com eventual aumento progressivo de acordo com a resposta do paciente e a ocorrência de efeitos adversos.
Mesmo quando existe diagnóstico de obesidade, a farmacoterapia não é automaticamente a primeira opção. A SBP orienta que o médico avalie a resposta do paciente às intervenções anteriores, a gravidade da doença, a existência de outras condições de saúde, os riscos do medicamento e a capacidade de acompanhamento.
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Mariana destaca que alimentação adequada, atividade física, sono e mudanças comportamentais continuam sendo fundamentais. O medicamento, quando indicado, entra como parte de um tratamento mais amplo. “Se a pessoa, mesmo usando o remédio, não tiver mudança de estilo de vida, não vai ter uma resposta adequada”, afirma.
Riscos do uso sem supervisão
A SBP alerta que a utilização sem indicação e acompanhamento médico pode aumentar a frequência e a gravidade dos eventos adversos. Os efeitos mais comuns dos medicamentos incretínicos são gastrointestinais, como náuseas, vômitos, refluxo, azia, diarreia e constipação. Eles tendem a aparecer principalmente durante o início do tratamento ou quando há aumento da dose.
Entre os riscos mais importantes estão ainda perda de massa muscular, desidratação e alterações de eletrólitos. Eventos potencialmente graves, embora menos frequentes, incluem pancreatite, hipoglicemia e cálculos na vesícula biliar.
Outro ponto de atenção é a perda de massa magra e de peso de forma excessivamente rápida durante uma fase em que o organismo ainda está em desenvolvimento. Por isso, a endocrinologista reforça a necessidade de cautela especialmente entre crianças e adolescentes.
Pressão estética
Para a SBP, o uso com finalidade estética representa uma preocupação particular entre adolescentes, que são mais vulneráveis à pressão social relacionada à aparência. A entidade contraindica o uso dos medicamentos por jovens com peso adequado apenas para modificar o corpo ou alcançar um determinado padrão estético. “Não podemos, transformar o medicamento indicado para tratar uma doença em um produto estético”, diz Mariana, sobre a nota.
A SBP também ressalta que as canetas não devem ser utilizadas para perder peso rapidamente antes de festas, viagens ou competições, nem para compensar períodos de alimentação inadequada ou sedentarismo.
A médica observa ainda que a obesidade infantil não pode ser reduzida a uma questão de força de vontade. A doença envolve fatores genéticos, metabólicos, comportamentais, sociais e ambientais. “Tem que ter em mente que nem todo mundo é obeso porque quer. Tem pessoas que têm mais facilidade para ganho de peso”, afirma.
Produtos clandestinos
A SBP também contraindica o uso de produtos sem procedência ou registro sanitário, incluindo preparações clandestinas, manipuladas ou importadas sem registro da Anvisa.
Mariana considera esse um problema especialmente grave no atendimento pediátrico. Segundo ela, medicamentos adquiridos por vias ilegais não oferecem as mesmas garantias de qualidade, composição e segurança dos produtos registrados. “Não dá para ter certeza que uma medicação manipulada ou trazida de forma ilícita seja segura, ainda mais na faixa etária pediátrica, porque pode colocar a vida da pessoa em risco”, alerta.
No Brasil, a aquisição dessas medicações depende de prescrição médica, que fica retida na farmácia. Para a endocrinologista, a expansão do mercado clandestino também pode prejudicar pacientes que realmente necessitam do tratamento, ao aumentar o estigma e o receio em relação aos medicamentos.






