Imagem ilustrativa da imagem Câncer de próstata: prevenção negligenciada
| Foto: Folha Arte

São Paulo - Pesquisa divulgada recentemente no Brasil com homens diagnosticados com câncer de próstata revelou dados alarmantes sobre a doença. Um terço dos entrevistados nunca procurou um médico de forma preventiva, apenas diante do surgimento de algum sintoma. Estes pacientes também disseram ter procurado ajuda em média seis meses depois do surgimento dos males mais comuns, que são vontade frequente de urinar, sangue ou urina no líquido seminal, dores no quadril, coxas ou ombros especialmente à noite e interrupções ou fraqueza no fluxo urinário. E mais da metade, 51%, afirmaram encontrarem-se com este quadro no momento em que decidiram procurar o atendimento profissional.

Postura preocupante uma vez que, de cada 10 pacientes diagnosticados com o câncer apenas na próstata (não metastático), “oito a nove serão curados”, afirmou Fernando Maluf, oncologista clínico e diretor médico do Centro Oncológico da Beneficência Portuguesa de São Paulo. Maluf revelou que o câncer de próstata sempre foi um dos tipos mais complexos para serem compreendidos e diagnosticados pela medicina.

“Antigamente todo o paciente era operado ou irradiado. Hoje aquele que está com uma dor e vai procurar o médico pela dor e não porque está perdendo peso, o paciente com a doença precoce, de cada dez homens três ou quatro apenas vão ser só observados, sem tratamento. Destes homens, só 50% vão ter que ser tratados”, detalhou o especialista, que é membro do Comitê Gestor do Hospital Albert Einstein e diretor do Centro de Oncologia do Hospital Santa Lúcia, em Brasília.

EMOCIONAL

Já no aspecto emocional foi constatado maior procura por acompanhamento psicológico entre pacientes metastáticos em relação aos não metastáticos, 31% contra 17%. Para a psico-oncologista Luiza Polessa, membro da SBPO (Sociedade Brasileira de Psico-oncologia), é necessário olhar o aspecto psicossocial da doença, uma vez que o paciente pode, de uma para outra, deixar de ser produtivo socialmente. “Além disso, os indivíduos precisam lidar com outras questões associadas ao câncer, como disfunção erétil, que descaracterizam a identidade do homem de uma maneira muito significativa”, afirmou.

Responsável por acompanhar pacientes diagnosticados com câncer desde a descoberta da doença, Polessa avalia que normas de gênero ainda têm um papel enorme no afastamento de muitos homens do exame do toque retal. “Quando na realidade, nós sabemos, o homem sabe que tem esse risco para ele, é uma possibilidade. É como a mulher, ela sabe que pode ter câncer de mama então ela faz um trabalho preventivo. O homem não faz um trabalho preventivo, só procura quando está sintomático e mesmo assim segura o sintoma durante muito tempo, começa a fazer a investigação e começa, assim, a distender o prazo entre um exame e outro”, lamentou.

QUALIDADE DE VIDA

A pesquisa foi realizada pelo Instituto Ipsos a pedido da Janssen, farmacêutica da Johnson & Johnson, por meio de um questionário e por telefone com 200 homens acima dos 40 anos diagnosticados com o câncer há mais de dois anos em 13 capitais brasileiras. Dentre eles, 52% eram aposentados, 37% continuavam trabalhando e 12% disseram estar desempregados, taxa que acompanha o índice geral de desemprego no País na data em que a pesquisa foi produzida, entre novembro de 2018 e fevereiro deste ano.

No entanto, quando divididos em dois grupos, sendo o primeiro formado por pacientes com o quadro mais avançado, ou metastático (30%), e o segundo por pacientes não metastáticos (70%), ou seja, quando o câncer não evoluiu para outros órgãos, os índices de desemprego e perda da qualidade de vida encontrados foram maiores. Ao todo, 57% dos pacientes metastáticos precisaram parar de trabalhar por conta das complicações causadas pelo avanço da doença, contra 27% dos não metastáticos que precisaram abandonar a atividade laboral.

Além disso, 31% dos pacientes metastáticos afirmaram ter que deixar de realizar atividades sociais, como lazer e exercícios físicos, o triplo em relação ao grupo de não metastáticos. Já 80% dos entrevistados revelaram que o câncer impactou a vida sexual e 46% disseram que a doença atrapalhou o relacionamento.

O jornalista viajou a São Paulo a convite da Jannsen

ESTIMATIVA

O câncer de próstata é o segundo mais frequente entre homens no Brasil, perdendo apenas para o câncer de pele não melanoma. A estimativa do Inca (Instituto Nacional de Câncer) é que, no biênio 2018-2019, sejam diagnosticados 136,2 mil novos casos. Também de acordo com o instituto, 75% dos casos ocorrem após os 65 anos. A Sociedade Brasileira de Urologia recomenda que avaliações individuais sejam realizadas a partir dos 50 anos. No entanto, havendo histórico familiar, a recomendação para a realização do exame de toque retal seja aos 45, além da dosagem do antígeno prostático específico (PSA) e eventual solicitação de ultrassonografia, ressonância magnética e até biopsia.

ALTERNATIVA

Disponível no mercado desde março deste ano, sendo o Brasil o 5ª país a ter o medicamento aprovado pelo órgão regulador, a Apalutamida se apresenta como alternativa para frear o avanço do câncer para além da próstata. Em estudo divulgado pela Janssen (Spartan), a droga foi responsável por reduzir em 72% ou proporcionar em média 40,5 meses de sobrevida livre do surgimento do quadro metastático em relação aos testes com placebo. Nestes pacientes, a mediana livre de metástase foi 16,2 meses.

O estudo foi realizado em 332 centros em 26 países com 1.201 pacientes com câncer de próstata não metastático resistente à castração. Segundo a Janssen o medicamento oral funciona como um inibidor do receptor de andrógeno, o que, quando combinado com terapia de privação androgênica (ADT), reduz o nível de testosterona, hormônio que serve de “alimento” para os tumores crescerem. Uma vez iniciado o tratamento a droga bloqueia a entrada dos receptores do hormônio na célula cancerosa, impedindo os receptores de se ligarem ao DNA da célula maligna.

“Muitas vezes a metástase pode vir muito depois mas só do paciente ver o PSA (um marcador sanguíneo) aumentando é uma coisa muito impressionante e gera muita ansiedade. Então o grupo da Apalutamida foi realmente gigante a diferença em (não) aumentar o PSA, protegeu 94% dos pacientes de terem a progressão”, explicou Telma Santos, diretora médica da farmacêutica no Brasil.

De acordo com Santos, apesar de terem recebido terapia de privação androgênica contínua, os pacientes não metastáticos apresentavam rápida elevação no PSA, tendo alto risco de desenvolverem metástase.

Em fases mais avançadas a metástase pode causar dor óssea, provocar fraturas ou até compressão da coluna vertebral, além de grande redução da expectativa de vida para, em média, três anos após a constatação do quadro.

mockup