Brasil ocupa 42º lugar em índice de qualidade de morte
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segunda-feira, 16 de novembro de 2015
Micaela Orikasa<br> Reportagem Local 
Um assunto envolto de angústia, lágrimas e sofrimento. Falar sobre a morte nunca foi tranquilo para ninguém. No entanto, quando se é obrigado a lidar com ela, faz muita diferença saber que houve conforto e compreensão nos últimos momentos.
Nesse sentido, um importante passo é quebrar mitos e tabus, por meio de informação e diálogo, em conjunto com a promoção de cuidados paliativos. Essa forma de assistência interdisciplinar proporciona o direito do paciente viver com o mínimo possível de dor e sofrimento, ou seja, dentro de uma esfera suportável para ele e toda a família.
No entanto, um levantamento sobre qualidade de morte em 80 países mostra que o Brasil precisa avançar. O ranking foi publicado no mês passado pelo The Economist Intelligence Unit e considerou fatores como disponibilidade, custo e qualidade dos serviços na área.
Na tabela, o Brasil aparece em 42° lugar. O Reino Unido, Austrália e Nova Zelândia lideram com as três primeiras posições, respectivamente. "Estamos começando a abrir os olhos. As notificações de mortes crônicas e sofridas vem sendo mais observadas", diz Elizabeth Maria Silva Pavão, formada em Cuidados Paliativos e membro da Capelania do Hospital Estadual Central do Espírito Santo (ES).
Considerando o estudo, ela explica que enquanto outros países já possuem protocolos para esse tipo de tratamento, o Brasil segue lento em termos de organização estrutural e política. "Há muitos profissionais que ainda desconhecem esse trabalho", acrescenta.
Outro levantamento da Organização Mundial de Saúde (OMS), em 2014, revela que os cuidados paliativos atendem apenas uma em cada dez pessoas. De acordo com Marcos Silveira Lapa, geriatra em Londrina com formação em Cuidados Paliativos, deixando o paciente sem dor, ele terá uma qualidade de vida melhor, mesmo com uma doença incurável. "Isso promove um aumento da expectativa de vida. Tivemos vários pacientes com câncer de pâncreas, por exemplo, cuja expectativa de vida em geral era em torno de seis meses, mas que passou para mais de um ano", cita.
Para isso, a equipe médica entra com medidas, como, por exemplo, sessões de fisioterapia e medicamentos para aliviar os sintomas, seja dor, vômitos, dispneia, falta de apetite ou sono, entre outros. "Isto é tudo aquilo que, de certa forma, é uma consequência da doença progressiva", completa.
A partir do momento que esse sofrimento é amenizado, o paciente tem condições para conversar sobre a própria situação, o que, segundo os especialistas, pode melhorar e muito os resultados dos tratamentos e tempo de internação.
"Os cuidados paliativos chegam na hora que a pessoa mais precisa ser acolhida. Alguns médicos podem até dizer que não há mais o que fazer, mas é justamente nesse momento que algo precisa ser feito. Há recursos para se fazer um bom cuidado e não abandonar a pessoa à própria sorte" salienta.
Franciele Costa Zamariam entende que a doença de sua mãe Edna é incurável. Aos 29 anos, ela convive com o câncer ao dividir os cuidados diários com o pai. Sua mãe tem 59 anos e um tumor metastático que começou na mama direita, avançou para as axilas, corrente sanguínea e ossos.
Em poucos meses, Franciele viu a mãe perder o apetite e, consequentemente, mais de 30 quilos. Mas ela também viu a mãe melhorar gradativamente com a assistência da Equipe Interdisciplinar de Cuidados Paliativos Oncológicos (EICPO) do Hospital do Câncer de Londrina (HCL).
"Ela é outra pessoa. Melhorou 90% em termos de dor e, hoje, já come melhor. Além disso, tudo o que queremos saber, o médico nos explica. As conversas nos ajudaram a ficar menos angustiadas e lidar melhor com a situação", conta Franciele, que é assistida pelo médico da EICPO, Marcos Silveira Lapa. Ela é apenas um exemplo entre milhares de pessoas que têm um familiar lutando diariamente contra doenças incuráveis e que precisam desse suporte.
"Hoje não se admite mais que um paciente que esteja morrendo tenha dor e sintomas, com a família angustiada ao lado. Não é assim. Se você tem que enfrentar isso, que seja com dignidade, com uma maneira mais aceitável em relação ao sofrimento desses familiares", afirma Etel dos Santos Fernandez, nefrologista e membro da EICPO.

