Com 14 milhões de diabéticos, o Brasil é o quarto país do mundo em número de pessoas portadoras da doença. Nove em cada dez delas têm diabetes tipo 2, que surge quando o organismo não consegue usar adequadamente a insulina que produz ou não produz insulina suficiente para controlar os níveis de glicose no sangue. Entre as complicações causadas pela hiperglicemia, as doenças cardiovasculares se destacam, sendo responsáveis por metade das mortes nos pacientes diabéticos.
Nos últimos anos, surgiram no mercado farmacêutico novas substâncias que prometem controlar a taxa de glicose no sangue de pacientes adultos portadores de diabetes tipo 2 e reduzir os riscos de doenças cardiovasculares. Esses medicamentos inibem a ação da proteína SGLT-2, responsável pela reabsorção da glicose filtrada nos rins antes que ela seja eliminada do organismo. Sem a reabsorção, a glicose é expelida pela urina.
Entre 2014 e 2015, três substâncias administradas por via oral tornaram-se disponíveis para uso no Brasil - a canagliflozina, a dapagliflozina e a empagliflozina. Além do controle da glicemia, os novos medicamentos prometem facilitar a perda de peso e o controle da pressão arterial, fatores associados às ocorrências de infarto e acidente vascular cerebral (AVC).
Na semana passada, um workshop realizado em São Paulo discutiu as novas opções de tratamento disponíveis para controle de diabetes tipo 2. Na ocasião, foi apresentado o resultado do estudo clínico EMPA-REG OUTCOME, conduzido por meio de uma aliança entre as empresas farmacêuticas Boehringer Ingelheim e Eli Lilly, e que observou especificamente os efeitos da empagliflozina. Ao longo de três anos, o estudo avaliou mais de 7 mil adultos acima dos 60 anos de idade, portadores de diabetes tipo 2 e de alto risco cardiovascular, em 42 países. Um terço deles recebeu placebo, um terço recebeu a empagliflozina 10 mg uma vez ao dia e um terço recebeu a empagliflozina 25 mg uma vez ao dia, sempre associados ao tratamento padrão.
Entre os dois grupos tratados com a substância inibidora de SGLT-2, observou-se a redução dos riscos de mortalidade por doenças cardiovasculares. "Com a administração do medicamento, os diabéticos perdem cerca de 78 gramas de açúcar na urina, o que equivale a cerca de seis colheres de sopa de açúcar e a 312 calorias", ressaltou a médica endocrinologista Thais Melo, head de Medical Affairs da Boehringer Ingelheim do Brasil.
Entre os benefícios observados com o uso da substância, o endocrinologista Andrés Palacio, da Clínica Integral de Diabetes, de Medellin, na Colômbia, destacou, além da redução de infartos e AVCs, o aumento da estabilização de doenças cardiovasculares, reduzindo em 38% o risco de mortes decorrentes dessas doenças. Entre os 14 milhões de diabéticos existentes no Brasil, 40% sofrem de problemas cardiovasculares.
Os médicos ressaltam, no entanto, que essa nova classe de antidiabéticos, embora possa ser associada à insulina, não pode ser usada por crianças e nem por portadores de diabetes tipo 1.
Presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia no Paraná, a médica endocrinologista Silmara Leite lembrou que entre os inibidores de SGLT-2, só há um estudo aprofundado sobre a empagliflozina, que é o EMPA-REG. Estudos semelhantes relacionados à canagliflozina e à dapagliflozina ainda estão em andamento. "O EMPA-REG comprovou que a empagliflozina tem um benefício significativo em pacientes de alto risco com mais de 60 anos de idade. Mas o diabetes tipo 2 é uma doença heterogênea e essa substância pode não ser a melhor escolha para todos os pacientes. Fora dessa população, não é necessariamente o melhor remédio."
Silmara Leite também chama a atenção para o fato de a substância aumentar o risco de infecção urinária e infecção genital em razão da maior quantidade de açúcar na urina, o que favorece a proliferação de fungos. Em pacientes acima dos 80 anos de idade a empagliflozina também pode levar a uma desidratação, caso não seja aumentada a ingestão de líquidos durante o tratamento com a substância.
Para o presidente da Associação Nacional de Atenção ao Diabetes (Anad), Fadlo Fraige Filho, os inibidores de SGLT-2 devem ser tratados como "segunda ou terceira opção" de tratamento. "É um avanço, sim, mas é um mecanismo que não depende de uma ação no pâncreas. Ele age apenas nos rins, inibindo a proteína", destacou.
Fraige Filho observou ainda que o risco de cetoacidose associado ao uso desse tipo de medicamento não pode ser desconsiderado. A cetoacidose é um problema grave que ocorre quando há falta de insulina e, para evitar que as células parem de funcionar, o organismo passa a usar a gordura do corpo como fonte de energia.

A repórter viajou a convite de Boehringer Ingelheim e Eli Lilly

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