Autocuidado necessário
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domingo, 16 de abril de 2017
Pedro Marconi<br> Reportagem Local 

Cuidar de um familiar em um momento de doença é importante e exige dedicação. Porém, a partir do momento em que se assume esta responsabilidade, também é necessário um olhar especial para a saúde do cuidador, seja física ou psicológica, já que muitas vezes ela acaba ficando em segundo plano.
"O cuidador muitas vezes acaba não se cuidando", observa o geriatra Marcos Cabrera, de Londrina. Segundo o ele, a pessoa não pode deixar de lado sua rotina e afazeres, mesmo que isso seja difícil. "Ela não pode abrir mão do estilo de vida. Se frequentava a igreja, deve continuar, se recebia os netos em casa, não pode deixar de fazer isso, e assim segue", exemplifica. O geriatra também chama atenção sobre as doenças que podem acometer os cuidadores em decorrência dessa falta de autocuidado, como a depressão. "Eles precisam ficar atentos para também tratar de distúrbios de sono e alimentação", alerta.
Cuidando da irmã, que sofre de Alzheimer, há cerca de seis anos, a professora Roseli Lima, de 66 anos, viu a doença agravar-se nos últimos seis meses. Foi quando teve de abrir mão dos projetos que executava na faculdade onde leciona para ter mais tempo para a parente, 16 anos mais velha. "Sempre saio com a minha irmã; onde ela precisa ir eu levo. Como tive que cuidar dos meus pais anteriormente por problemas de saúde da idade deles, acabei tendo mais facilidade para lidar com ela", conta.
Com uma rotina agitada e precisando dividir-se entre o cuidado da irmã e o trabalho, Roseli busca fazer atividades nas horas vagas. "Ainda consigo fazer pilates. Também gosto de circular pela cidade para ver o que está acontecendo, seja de carro ou a pé, saio com algumas pessoas mais próximas e de vez em quando vou para o Facebook para dar uma espairecida."
Já a dona de casa Rose Pires, de 51, teve que adiar a volta para o mercado de trabalho para poder prestar um auxílio maior aos pais. Enquanto a mãe de 82 anos se recuperou há pouco tempo de uma fratura no fêmur, o pai, de 83, convive com uma demência vascular leve, necessitando de uma atenção especial da filha, que é a única familiar próxima.
Morando no mesmo prédio que os pais, ela acaba passando a maior parte do dia no apartamento deles. "Ultimamente meu autocuidado está sendo através da música, assistir televisão, filmes e minisséries. Comer algo que gosto e levar meus pais para sair também. Mas, atividade física ou fazer uma dança, isso eu não estou conseguindo", lamentou.
Enfrentando desafios diários, as cuidadoras apontam o emocional e o espiritual como os principais pontos que precisam evoluir. "O emocional pesa muito. Você consegue resolver outras situações, mas o emocional é o drama. Tem momentos que corro para o meu irmão e a minha irmã para conversar e descarregar um pouco", confessa Roseli. "Às vezes me pego chorando. Dirigi o carro do meu pai há algum tempo e acabei refletindo que isso era algo que ele gostava, mas que hoje não pode fazer mais", emociona-se Rose.
O autocuidado envolve muitas questões, entre elas a atenção às necessidades, desejos, comportamentos e emoções. Por isso, é preciso buscar estratégias para descarregar esta tensão. Para a fisioterapeuta e professora da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Fernanda Cristina de Melo, a busca por um compartilhamento é uma maneira de ter um apoio.

"É importante compartilhar o cuidado, porque muitas vezes essa responsabilidade fica concentrada em apenas uma pessoa, que normalmente é o filho ou a esposa ou esposo, e sobrecarrega a própria saúde. É necessário buscar estratégias para dividir esse cuidado e resgatar atividades que ao longo da vida foram importantes para o cuidador e que ele acaba abandonando", destaca.

