Claudia e Alcides Morimoto com Danielly: “Ela nos ensina o verdadeiro sentido do que é o amor”
Claudia e Alcides Morimoto com Danielly: “Ela nos ensina o verdadeiro sentido do que é o amor” | Foto: Gustavo Carneiro

O TEA (Transtorno do Espectro Autista) e a epilepsia são patologias distintas, porém com relação entre si. Estima-se que até 30% das pessoas com autismo tenham epilepsia. Como ponto em comum, ambos os transtornos possuem conexão com o cérebro, com o primeiro se configurando por um distúrbio neurológico e multifatorial, sem uma causa aparente, e o segundo crises convulsivas, com origem ligada a questões genéticas, estruturais e hereditárias.

De acordo com a psiquiatra Camilla Fragano, especialista em crianças e adolescentes, existem alterações genéticas que predispõem à ocorrência de TEA e epilepsia juntos. “Isso não faz do autismo fator de risco. Pessoas em tratamento de autismo devem ser questionadas sobre sinais e sintomas de epilepsia, assim como quem está em tratamento de epilepsia deve ser triado para transtorno de espectro. O diagnóstico precoce e correto das duas condições é importante para o sucesso do tratamento de ambas”, indica especialista de Londrina.

A médica explica que, normalmente, quando existe o TEA e epilepsia os casos são mais graves, associados à deficiência intelectual e menor capacidade verbal. “Cada caso precisa ser avaliado individualmente, pois assim como existem vários tipos de crises epiléticas, também há uma variação muito grande nas características das pessoas com Transtorno do Espectro Autista, indo de casos leves a graves, que necessitam de bastante suporte”, indica.

Qualquer fase da vida

Diferente do autismo, a epilepsia tem cura. Já o diagnóstico de ambos pode ocorrer em qualquer fase da vida. “Tem epilepsia que começa na infância, podendo ser problemas de periparto, infecção neonatal; na adolescência, a partir de doenças genéticas, convulsão febril; idade adulta, relacionada aos traumas, acidente de moto ou carro; e terceira idade, com AVC (Acidente Vascular Cerebral), tumores, Alzheimer”, elenca a neurologista e neurofisiologista clínica, Elaine Keiko Fujisao.

Ela ressalta que as crises ligadas à epilepsia não estão estritas a convulsões, mas sim a tudo o que o cérebro é capaz de fazer. “Tem o local do cérebro responsável pela visão, então a crise pode ser relacionada com o sistema visual; tem região responsável pelo medo, a pessoa pode expor muito medo”, esclarece. A epilepsia é determinada quando as crises são recorrentes, semelhantes e depois da instabilidade a pessoa apresenta algum tipo de sintoma característico, como dor de cabeça, sono e confusão mental. “É como se fosse um choque no cérebro”, compara a neurologista.

Tratamento amplo

O tratamento para aqueles que têm as duas condições associadas precisa ser amplo, com o planejamento terapêutico sendo executado para o paciente atingir o máximo de seu potencial para melhor qualidade de vida. “O tratamento deve ser multiprofissional, com uma equipe contendo psiquiatra, neurologista e psicólogo. Muitos casos ainda podem contar com terapeuta ocupacional, fisioterapeuta, fonoaudiólogo”, aponta Fragano. Cerca de 70% das pessoas com epilepsia ficam bem com uma medicação. O diagnóstico para classificar a doença é clínico.

Classificação

A partir do quadro clinico, o TEA pode ser classificado em três tipos: clássico, de alto desempenho e distúrbio global do desenvolvimento sem outra especificação, com o grau de comprometimento variando entre um e outro. A epilepsia é basicamente dividida em dois tipos, sendo a de crises focais e as generalizadas.

Por não ser aparente, Fujisao sugere que o paciente deve levar em conta a vida e rotina para comunicar se tem ou não epilepsia, como em empresas e até com os amigos. “No mundo perfeito as pessoas deveriam falar, porque não é vergonha ter. Agora a realidade que vivemos é mais complicada. Não acho que a sociedade em geral é preconceituosa, porém falta conhecimento”, reconhece.

O que fazer

Ao se deparar com alguém durante uma crise convulsiva, a orientação é manter a calma, evitar deixar a pessoa sozinha e buscar protegê-la, retirando o que possa estar ao redor e colocando objetos macios para apoiar sua cabeça. “Na maioria das vezes a crise dura menos que três minutos. Já quando é mais que cinco minutos é estado de mal epilético e não vai passar sozinha, sendo essencial chamar atendimento médico. Não adianta segurar braços, pernas ou tentar 'tirar' a língua do paciente, pois é uma atividade elétrica do cérebro”, exemplifica Fujisao, que é especialista em epilepsia.

Além do cuidado com quem tem as patologias, é indispensável a atenção aos cuidadores, em especial a saúde emocional deles. “Cuidar de quem cuida. Existe uma incidência maior de depressão e ansiedade nos responsáveis pelos pacientes com TEA e epilepsia. Falar sobre o tema e não ter receio de buscar ajuda é fundamental, pois quanto mais cedo o diagnóstico e instituído o tratamento, maior a chance de desenvolvimento saudável e com menos sofrimento”, afirma a psiquiatra.

O 26 de março marcou o dia de conscientização da epilepsia, quando foi celebrado o “Purple Day”. Já nesta terça-feira (2) é comemorado o Dia Mundial de Conscientização do Autismo. As duas especialistas participaram de um evento sobre epilepsia no Hospital do Coração, na semana passada.


Amor, dedicação e muitas atividades. É assim que os pais de Danielly Tiemi Morimoto, 13, têm ajudado a filha em seu desenvolvimento e a superar as adversidades do dia a dia. A adolescente nasceu com Síndrome de Asperger (considerada uma forma do autismo) e ao longo da infância começou a apresentar sintomas de epilepsia. “Ela nasceu com prega única nas mãos. O pediatra cogitou a possibilidade de ser síndrome de Down. Foram feitos todos os exames para investigar a possível síndrome, mas nenhum neurologista arriscava diagnóstico. Hoje sabemos que é autismo leve”, relata a mãe da jovem, Claudia Yochida Morimoto.


A advogada engravidou aos 43 anos e desenvolveu diabetes gestacional. Danielly nasceu com sete meses e deu os primeiros passos aos cinco anos. Nove meses depois iniciaram as convulsões. “Chegavam a 18, 20 crises diárias. Ela foi para a UTI (Unidade de Terapia Intensiva) e quando voltou já não andava mais sem apoio”, relembra. “Acabei abrindo mão da carreira para de dedicar integralmente à Danielly. Aprendo muito todos os dias.”


De sorriso cativante, a adolescente recebe intervenção pelos métodos ABA (para tratamento de autismo) e PediaSuit, participa de projeto de natação inclusiva na UEL (Universidade Estadual de Londrina) e estuda no Ilece (Instituto Londrinense de Educação para Crianças Excepcionais). “Foi no Ilece que começou a andar, aprendeu o alfabeto, saiu das fraldas. É onde tem fisioterapia, fonoaudióloga, terapia ocupacional”, cita Claudia, que de tão envolvida na causa entrou para a direção da instituição.

Segundo ela, o fato da filha ter epilepsia acaba influenciado em todo este tratamento multiprofissional. “As intervenções só agregam, mas o problema são as convulsões. O que ela ganha em seis meses com terapia perde muito quando tem convulsão”, lamenta. Classificando o acompanhamento dela e do esposo, Alcides Morimoto, junto a Danyelle como participativo, também destaca que o crescimento acaba sendo mútuo. “Tenho mais dois filhos maiores e atualmente moro eu, meu esposo e a Danyelle. Procuramos estimular, levar para caminhar. É desafiador tudo isso, porém fazemos o nosso melhor. Me sinto privilegiada em ser mãe de um ser tão especial, que nos ensina o verdadeiro sentido do que é o amor”, resume.

Imagem ilustrativa da imagem Autismo e epilepsia: um relação frequente
| Foto: Folha Arte
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