O sofrimento de pacientes de câncer, a pobreza absoluta de crianças, a depressão de velhinhos esquecidos em asilos.

Um grupo de 60 estudantes de três cursinhos pré-vestibulares de Londrina está descobrindo que a vida pode ser muito mais difícil que os conflitos de gerações e as crises existenciais do final da adolescência. Foi numa aula de redação no Sigma Vestibulares, na área central de Londrina, que a maioria bem-nascida do grupo abriu suas portas da percepção social.

Há alguns meses, o choro de uma professora comoveu garotos e garotas de 16, 17, 18 anos, que resolveram se tornar voluntários e abraçar uma causa.

Naquele momento, a mulher responsável por este verdadeiro milagre de conscientização Flávia Adriane Santana Cabral deixou de ser a professora alto astral que se esforça para que os pupilos melhorem seu texto e recebam boas notas em uma prova decisiva do vestibular.

Perante a sala repleta, Flávia era apenas alguém que pedia ajuda. O motivo do choro foi a morte, naquele dia, de sua tia, vítima de câncer generalizado. ''Não conseguia parar de chorar. Eles me perguntavam o que poderiam fazer para me ajudar. Disse que ainda não sabia. Mas que a gente precisava fazer alguma coisa'', recorda a professora.

''Disse que minha tia não tinha resistido mas outras pessoas ainda estavam sofrendo com o câncer em casa e nos hospitais e eles se sensibilizaram''. Uma semana depois, ocorreu a primeira reunião dos que se dispuseram a ajudar.

Surgiu, então, a idéia de se apoiar entidades que faziam algum tipo de trabalho voluntário. A primeira causa foi a assistência aos que sofrem com câncer. A primeira entidade escolhida pelos novos voluntários foi o Grupo de Assistência ao Paciente com Câncer (Gapacan), fundado há pouco mais de 15 meses pelo casal Emília e Douglas Souza, que começaram ao trabalho após perder uma filha em decorrência da leucemia.

O Gapacan conta com apenas 10 voluntários e atende cerca de 40 pessoas. Das quatro linhas telefônicas, três estão cortadas por falta de pagamento. As dificuldades financeiras são constantes. A entidade atua na compra de remédios e na distribuição de cestas básiscas para as famílias dos pacientes e depende das promoções para continuar sobrevivendo.

Os voluntários da professora Flávia se mobilizaram e decidiram promover junto com o Gapacan um evento comunitário na Rua das Bananeiras, no Jardim Interlagos, zona leste. A data escolhida era ao mesmo tempo um dia santo e lúdico: 12 de outubro. Fizeram uma espécie de quermesse com rua de recreio no bairro. Venderam salgados e refrigerantes. Se revezaram, junto com os voluntários fixos do Gapacan, um sábado inteiro atrás de barracas e brincaram com os homenageados do dia. Arrecadaram R$ 2,5 mil em um bingo. Com o dinheiro, compraram cestas básicas doados aos pacientes com câncer.

Duas semanas depois, estavam lá na zona leste de novo, desta vez no Jardim Santa Fé. Junto com o Rotaract (braço jovem do Rotary) Londrina Norte foram até a Escola Municipal Maria Cândida Peixoto.

O grupo consumiu um pouco mais de seu altruísmo. No cenário de pobreza absoluta, brincaram, se divertiram e se emocionaram com o outro lado da moeda de uma sociedade desigual. ''Quando chamei um garoto e ele disse que não podia brincar porque estava descalço e ia queimar os pés, peguei ele no colo e comecei a chorar'', lembra Cristiane Freitas, 18 anos, que vai prestar vestibular de Letras. ''A gente saiu muito abalado. Mas parece que quanto mais ficávamos chocados, mais tínhamos vontade de fazer alguma coisa'', explica Cristiane, diretora de comunicação do grupo.

Com o processo desencadeado, foi mais fácil planejar uma rifa, na qual foram arrecadados mais R$ 500,00, apesar dos prêmios singelos. O apoio de 100 pessoas tornou possível o pagamento de contas atrasadas de telefone do Gapacan. ''Todo mundo se envolveu, quem não conseguiu vender, comprou o talão inteiro'', conta um dos coordenadores do trabalho, Luiz Carlos Dias Trindade.

Nas reuniões que se seguiram, o grupo foi aumentando junto com os planos. Os garotos e garotas visitaram asilos e organizaram uma agenda de visitas para combater a solidão dos velhinhos. Agora planejam montar uma ONG, com atuação mais abrangente. ''Vamos tentar ensinar na prática o que é cidadania, um termo muito usado mas que a maioria não entende muito bem'', lembra Flávia Cabral. ''Em um ano queremos ter a sede, até lá vamos apoiar trabalhos de outras entidades'', planeja.

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