No Brasil, diversos dispositivos legais, como leis e portarias, foram criados para garantir o cuidado e atenção integrais aos pacientes com câncer. Entre eles, destaca-se a Portaria nº 874, de 16 de maio de 2013, que instituiu a Política Nacional para a Prevenção e Controle do Câncer na Rede de Atenção à Saúde das Pessoas com Doenças Crônicas no âmbito do SUS. Apesar disso, ainda há falhas no sistema público, que mantém níveis distintos de qualidade e integralidade no atendimento entre as unidades e também entre as regiões do País.

O médico Roberto de Almeida Gil, da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica, ressalta que nos casos das hepatopatias, a atenção básica é fundamental porque representa a porta de entrada do paciente pouco sintomático ou assintomático aos serviços de saúde. "Quando a gente não tem isso, o paciente só vai procurar o pronto-socorro quando está sintomático, geralmente numa fase em que a doença está tão avançada que não permite mais o tratamento curativo", observou. "Um investimento maior em saúde pública continua sendo na rede de assistência básica. Mas a gente tem que preparar o equilíbrio do sistema, que essa assistência básica consiga convergir para o atendimento na média complexidade e depois o encaminhamento para os outros hospitais de alta complexidade."

Gil defende o fortalecimento das campanhas de prevenção e tratamento das hepatites B e C, doenças causadoras da cirrose hepática e que pode evoluir para o carcinoma hepatocelular (CHC). "Tem áreas no Brasil que ainda convivem com hepatite B e a gente teve um grande surto de hepatite C. As pessoas precisam aderir integralmente às campanhas de vacinação e ser conscientizadas de que se fazem parte de grupos de risco para um dos dois tipos de hepatite devem fazer os exames e o acompanhamento da doença."

Segundo ele, controlar a obesidade da população, com uma transformação do padrão alimentar, também deve fazer parte das ações do SUS porque o combate ao excesso de peso previne a esteatose hepática, que pode evoluir para cirrose e câncer.

O médico lembra que metade dos recursos para custeio do SUS é proveniente do governo federal, 25% dos governos estaduais e 25% dos municípios. A construção de uma linha de cuidados, afirmou, tem que ser estabelecida a partir da contribuição das três esferas. "Cada um deve colaborar à sua maneira no sentido da construção dessa política e tem que ter outros mecanismos de financiamento de saúde para que possa dar conta da demanda da população."

Gil reconhece que o SUS não estaria preparado para atender se uma grande parte da população resolvesse investigar a saúde do fígado, mas reforçou a necessidade de se fazer essa prevenção. "84% dos pacientes chegam ao sistema já diagnosticados com câncer ou em fase terminal e gasta dinheiro do sistema; é um gasto que não está sendo priorizado no melhor momento da doença."(S.S.)

mockup