A dona de casa Elza de Carvalho Pereira tem motivos de sobra para comemorar e soltar uma gargalhada, dessas que tem o poder de contagiar quem está ao lado. Aos 74 anos, ela tem uma história de sucesso para contar aos netos. Ela sobreviveu ao rompimento de um aneurisma da aorta abdominal (dilatação do vaso principal existente no abdômen), uma doença que pode causar morte súbita em 80% dos pacientes. O alto índice de mortalidade também é verificado nos casos de sobreviventes que conseguem chegar ao hospital, 80% não resistem a cirurgia ou morrem no período pós-cirúrgico.
Como uma grande avenida, a aorta é uma artéria de grosso calibre que distribui o sangue oxigenado do coração aos demais órgãos. O problema se dá quando ocorre uma duplicação ou triplicação desta avenida em apenas poucas quadras. O congestionamento e a ruptura desta via acabam sendo inevitáveis. O alargamento da artéria pode ocorrer em qualquer parte do trajeto, mas o mais comum é na região do abdômen. Esta dilatação acontece porque o tecido muscular da aorta se fragiliza em razão da alta pressão que o sangue exerce ao se movimentar nas artérias.
O problema tem influência genética, mas a hipertensão arterial, o tabagismo e o colesterol elevado são considerados importantes fatores de risco. O cirurgião vascular Ronaldo Daudt explica que o diâmetro normal da aorta em um adulto saudável tem em média 1,5 cm. "Consideramos aneurisma quando o diâmetro chega a três centímetros, neste caso o tratamento é medicamentoso. Quando esta largura chega a cinco centímetros, o tratamento é cirúrgico", salienta.
Por afetar mais pessoas do sexo masculino, o médico recomenda aos homens com mais de 65 anos, em especial os fumantes, que façam regularmente o exame de ultrassom como preventivo da doença. Estima-se que 5% dos homens com mais de 65 anos tenham aneurisma abdominal.

Assintomática
Na maioria dos casos, a doença é assintomática e a artéria aorta vai aumentando de tamanho gradativamente. O médico explica que geralmente a doença é descoberta por acaso em exames de rotina, e que quando o sintoma de dor aparece a situação é de emergência e pode ser fatal. "A dor muito forte normalmente é sentida quando o aneurisma rompe e o paciente morre por hemorragia interna", afirma Daudt. Alguns sintomas podem aparecer antes do rompimento e é preciso estar atento para identificá-los, dores nas costas e manchas roxas nos pés precisam ser investigados.
Por conta da gravidade do problema, o médico afirma que muitas pessoas morrem antes mesmo de chegarem ao hospital e em grande parte das vezes a família nem fica sabendo a causa exata da morte.
Contrariando as estatísticas, Elza conviveu com o problema durante mais de dois meses sem saber do que se tratava. "Em um dia, no final de janeiro, eu me senti muito mal, com ânsia de vômito. Nos dias que seguiram eu comecei a sentir uma forte dor nas costas, mas não sabia do que se tratava", lembra. A dona de casa conta que já teve hérnia de disco e que a dor, apesar de ser nas costas, não era igual a que sentia na coluna. "No posto de saúde, eles me davam injeção para dor, mas melhorava muito pouco", lembra.
O médico do posto de saúde recomendou que ela fizesse uma tomografia para investigar o problema. Somente neste exame o aneurisma foi identificado. Ela foi então encaminhada a um neurologista e, por final, a um cirurgião vascular. "Ele disse que a minha sorte foi que o meu aneurisma rompeu para trás e o sangue que escapou ficou retido na região da coluna. Se o rompimento tivesse sido para a frente eu certamente não estaria aqui para contar esta história", comenta.
O diagnóstico do cirurgião vascular e a cirurgia de dona Elza foram feitos no mês de abril. "Quando o vascular viu o exame me encaminhou direto do consultório para o internamento no hospital", lembra a dona de casa. Diante da situação, ela tinha uma chance de 9% de sair viva do centro cirúrgico, mas tudo correu bem e ela voltou para casa animada. A perda de peso e a anemia são consequências da doença que estão sendo contornadas. Para ela, agora é hora de recuperar a saúde para curtir a vida com os filhos e netos.

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