Diante da legislação que autoriza a interrupção da gestação em casos de feto com anencefalia, um país inteiro se volta para esta discussão. No entanto, o diagnóstico da malformação tem diversas especificidades, nem sempre conhecidas pelo público leigo. O médico neuropediatra Efigênio de Castro Junior explica que há consequências provenientes de cada período gestacional e que a anencefalia é uma alteração que acontece entre o 21º e o 26º dia de gestação.
''É uma alteração no sistema nervoso central, neste período não ocorre o fechamento esperado de uma determinada estrutura'', simplifica. O diagnóstico pode ser feito através de um exame de ultrassom a partir da 12 semana.
O médico considera o termo ''anencefalia'' equivocado, já que ele dá a impressão de ausência total de cérebro, o que, segundo o neuropediatra, não é verdade. ''Estes indivíduos têm uma malformação. Eles não tem o córtex cerebral, mas possuem o tronco encefálico e alguns inclusive apresentam uma massa disforme e gelatinosa'', explica.
O neuropediatra acrescenta que o tronco encefálico é a porção do cérebro que faz o controle de atividades involuntárias como respiração, batimentos cardíacos, sucção, choro. ''É a parte mais baixa do cérebro, que tem ligação direta com a medula óssea'', completa.
A causa da ocorrência da anencefalia é desconhecida e a incidência é de um para cada mil fetos, o que é considerado um número 'relativamente pequeno'' para ele. A maioria destas gestações é interrompida naturalmente, muitas vezes a gestante aborta mesmo sem saber que tinha um feto com anencefalia.
Aqueles que chegam a nascer são prematuros, têm baixo peso e possuem funções vegetativas, como a capacidade de respirarem sozinhos e do coração bater. ''Do ponto de vista técnico é um indivíduo que tem uma sobrevida de horas ou dias. Em casos extremos podem sobreviver por um ano ou até um pouco mais'', destaca, acrescentando que a a média de sobrevida é de dois dias após o nascimento.
A grande questão que envolve esta discussão é em relação ao meio. ''Este indivíduo não tem funções objetivas e não demonstra afeto. Ele tem tronco encefálico e sabemos que sente dor, mas não conseguimos dimensionar isso'', diz o médico. Apesar de não terem relação com o meio que os cerca, eles possuem a parte do cérebro que é responsável pelas funções básicas da vida, mesmo que seja por pouco tempo.
Para o neuropediatra, cada caso deve ser analisado individualmente, exames de ressonância magnética apontam as alterações que cada paciente apresenta. Existem graus que determinam as malformações, mas não há uma classificação que identifique cada situação. Conforme ele, normalmente os problemas trazidos pela anencefalia não atingem apenas o sistema nervoso central. ''Estes indivíduos também apresentam alterações na base do crânio, fenda palatina, alterações neuro-endócrinas, a parte adrenal não funciona adequadamente. Estas situações normalmente são incompatíveis com a vida''.

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