Ambulatório do HU oferta 'vida normal' a crianças com diabetes

Projeto Gamellito realiza atendimento multidisciplinar a pacientes de até 18 anos; no Brasil, são 99 mil crianças e adolescentes com o tipo 1 da doença

Publicado domingo, 17 de agosto de 2025 | Autor: Heloísa Gonçalves às 07:28 h

O diabetes tipo 1 é uma doença hereditária e não transmissível, ocorrendo quando as células beta-pancreáticas, que produzem e secretam a insulina, são destruídas. Acomete, principalmente, crianças e adolescentes, com o tratamento exigindo o uso diário da insulina para regular a glicose no sangue. No Brasil, atualmente, são 99 mil pessoas da faixa etária (0 a 19 anos) com o diagnóstico confirmado. Em Londrina, um projeto desenvolvido no Hospital Universitário da UEL (Universidade Estadual de Londrina) atende pacientes de até 18 anos em diversas áreas médicas.

Jaqueline Araújo, coordenadora do Departamento de Diabetes Tipo 1 em Crianças e Adolescentes da SBD (Sociedade Brasileira de Diabetes), explicou que o Brasil é um dos países com maior incidência dessa forma de diabetes, “perdendo para os países nórdicos, como a Finlândia, para os Estados Unidos e para a Índia”.

Araújo ressaltou que não existe prevenção para o primeiro tipo, sendo que “a criança nasce predestinada a ter e ela terá, independente de alimentação saudável, atividade física ou de quaisquer medicações que venha a tomar”. Porém, estudos promissores são realizados quanto ao assunto.

No Brasil, 80% a 90% das crianças abaixo de cinco anos de idade recebem o diagnóstico quando são internadas em estado grave, indo frequentemente para a UTI (Unidade de Tratamento Intensivo). A SDB busca estimular o diagnóstico precoce para evitar a emergência, a internação em “estado chamado de cetoacidose diabética e muitas vezes em coma”.

A especialista reforçou a importância de projetos educativos que tratam da doença, afirmando que “existem centros especializados em cuidar das crianças em hospitais públicos de todas as grandes cidades”.

Projeto Gamellito em Londrina

Em Londrina, Vânia Vargas é responsável pelo projeto Gamellito, que atende cerca de 40 crianças e adolescentes do município e região diagnosticados com o tipo 1. Ela é psicóloga no AEHU (Ambulatório de Especialidades do HU) desde 1994, ano em que integrou um projeto multidisciplinar, ainda ativo, que atende pessoas com diabetes tipo 1 de todas as faixas etárias.

Vânia Vargas: criança passa a ser o cuidadora do  Gamellito, que possui diabetes tipo 1: “Ele tem que comer, tomar insulina, medir e ver quanto dá a glicemia"
Vânia Vargas: criança passa a ser o cuidadora do Gamellito, que possui diabetes tipo 1: “Ele tem que comer, tomar insulina, medir e ver quanto dá a glicemia" | Foto: Heloísa Gonçalves

Ela observou que as crianças e adolescentes tinham dificuldade em lidar com a condição, explicando que, como a doença é discutida com os pais, acabam não sendo os protagonistas do próprio tratamento. Também disse que é difícil para os mais jovens ouvirem a série de regras que devem cumprir para permanecerem saudáveis, além das complicações que podem ocorrer se não seguirem as recomendações.

“O diabetes descontrolado prejudica o corpo todo. É uma condição que eles não gostam de se dar conta, de ouvir que se não fizer isso pode perder a visão, ter amputação de membros, ter que fazer hemodiálise”, exemplificou Vargas.

Jogos de carta e tabuleiro com a temática do Gamellito são usados nas atividades
Jogos de carta e tabuleiro com a temática do Gamellito são usados nas atividades | Foto: Heloísa Gonçalves

'Diferentes de todos'

Pensando nisso, em 2010, a psicóloga entrevistou crianças diagnosticadas com diabetes, atestando a “visão ameaçadora e super dimensionada” que possuíam sobre a doença. “Elas falavam ‘fiquei com diabetes porque eu comi muito doce’, ‘deu um trovão lá perto de casa’, ‘minha avó tinha’ e ‘se eu não fizer (o tratamento) vou ficar cego’, ‘vou morrer’. Esperavam o pior, e ter que se adaptar, implantar uma rotina sem entender o porquê daquilo, não tem muito sentido”.

O trabalho nos quatro anos seguintes resultou na criação do Gamellito - em alusão ao nome científico -, um jogo com um protagonista homônimo que possui diabetes tipo 1 e é um extraterrestre, fazendo referência à sensação dos pacientes mirins de “serem diferentes de todos”. A criança passa a ser o cuidador do Gamellito, “que não sabe nada”, em vez de quem é cuidada no hospital. As decisões tomadas têm consequências imediatas de sucesso ou fracasso para o ET, simulando para o diabético a importância da moderação.

“O Gamellito tem que comer, tomar insulina, medir e ver quanto dá a glicemia. Para a comida, se escolher brigadeiro, bolo de cenoura, ele entra em uma ambulância e vai para o hospital. Isso faz com que a criança tenha um efeito de simulação, de cuidar de alguém que tem diabetes, o mais próximo da realidade possível, mas também de uma forma divertida”.

Por faixa etária

O aplicativo desenvolvido no HU de Londrina ganhou prêmios internacionais e levou a invenção de bonecos de pelúcia e jogos analógicos, de tabuleiro e cartas, com o Gamellito como tema, que são usados nas atividades presenciais do projeto no Ambulatório.

As crianças e adolescentes são divididos por faixa etária, de 5 a 10, de 11 a 14 e de 15 a 17 anos. “Esses grupos vêm mensalmente ao hospital e temos a participação de umas 20 áreas da Universidade. A frente clínica tem nutrição, psicologia, odontologia, oftalmologia, enfermagem, educação física, psicólogo, serviço social, endócrino”, listou Vânia Vargas, responsável pelo projeto.

Culinária saudável

Uma das atividades desenvolvidas com as crianças e adolescentes é a oficina de culinária, desenvolvida pela equipe de nutrição, em uma cozinha própria montada no setor. São ensinadas receitas adequadas ao paladar diabético, com baixo índice glicêmico, levando em conta que o tratamento para a doença do tipo 1, sem cura, é feito por meio da aplicação de insulina e seguindo a orientação alimentar.

Laura Perassoli, 14, contou que sua atividade favorita é a culinária. “A gente faz, depois come e não precisa tomar insulina, porque tem pouco carboidrato e não entra na contagem”, justifica.

A partir de sugestões dos pacientes, o cardápio já inclui pizza de abobrinha, bolo de chocolate com farinha de amêndoas, espetinho de frutas, pão sem farinha - feito com frango desfiado -, picolé de frutas, gelatina e até ovo de Páscoa feito com banana.

A menina trata a doença no Ambulatório desde os 9 meses de idade, quando a família recebeu o diagnóstico. A mãe, Renata, que é técnica de enfermagem, se preocupou ao perceber que a filha estava fazendo mais xixi do que o normal. “Eu fiz um teste de HGT (medição sanguínea da glicemia), que deu acima de 600 (mg/dL). Viemos para o HU e a Laura ficou quatro dias internada. Por ela ser a primeira bebê do Paraná a ter descoberto o diabetes tão cedo, começamos o tratamento e estamos aqui até hoje”.

Laura Perassoli, 14, com a mãe Renata; garota foi diagnosticada com diabetes tipo 1 aos 9 meses de idade
Laura Perassoli, 14, com a mãe Renata; garota foi diagnosticada com diabetes tipo 1 aos 9 meses de idade | Foto: Heloísa Gonçalves

Curiosidade dos colegas

Com os anos de prática, Laura conta os carboidratos que consome e consegue identificar sozinha quando seu nível glicêmico está alterado, tomando providências sem precisar de ajuda. “Quando estou com hiperglicemia me dá moleza, preguiça grande e muita vontade de beber água e ir ao banheiro, vou lá, meço e está alto. Com hipoglicemia me dá muito calor, sono e moleza também, meço e está abaixando”, detalha.

A adolescente contou que integrar o Gamellito faz com que ela não se sinta sozinha em seu diagnóstico. “Antes eu pensava que tinha só eu, porque quando vinha para consultar no endócrino era mais gente grande, eu pensava que não tinha muita gente da minha idade, mas depois que vim pra cá descobri que tem um monte”, relembrou.

Os colegas de classe mostram curiosidade quanto à doença de Laura, que leva agulhas extras no caso de algum deles pedir que ela meça sua glicemia, o que é recorrente. “Eles perguntam e eu gosto de explicar como é. Acham que é coisa de outro mundo, que é uma das piores coisas, mas não, vive uma vida normal”, pontuou.

Tratamento gratuito

Todo o atendimento ofertado pelo Ambulatório do HU é gratuito, feito via SUS (Sistema Único de Saúde). Laura realiza a autoaplicação de insulina pelo menos cinco vezes ao dia, que Renata busca mensalmente na 17ª Regional de Saúde de Londrina - 100 unidades de insulina glargina e 100 de lispro, também sem custo.

A mãe considera os benefícios do projeto “enormes”, tendo em conta não somente a assistência médica, mas o “profissionalismo e olhar humanitário que eles têm com o paciente e a família, por isso eu não abro mão do HU, do SUS, porque é um tratamento espetacular que envolve muitos profissionais, nos sentimos acolhidos”.

Alice é a paciente mais nova do projeto

Emily Dias é a mãe de Alice, 3, que foi diagnosticada com diabetes tipo 1 quando tinha 1 ano e dois meses. Após cinco idas a um hospital e um diagnóstico errado de virose, o correto veio somente quando a menina já estava na UTI (Unidade de Terapia Intensiva), onde apresentou um quadro grave de cetoacidose e precisou ser entubada.

Emocionada, Dias contou que Alice ficou internada por uma semana e tem uma cicatriz na cabeça, mas que a menina lutou e foi forte. “É uma sensação horrível ter que furar o dedo da sua filha que só tem um aninho, parecia que ia atravessar o dedo, o diagnóstico não foi fácil e até hoje não é”, disse a mãe.

Alice é a paciente mais nova que integra o Gamellito, sendo atendida pela equipe de endocrinologia, nutrição e educação física. Emily considera o projeto “de grande valia”, analisando os benefícios de conhecer outras mães que passam pela mesma situação que ela.

No momento, a maior dificuldade do tratamento é equilibrar o controle da glicemia com o acompanhamento alimentar, pontuou a mãe, pensando como será quando a filha começar a frequentar a escola no ano que vem.

Emily contou que sempre irá reforçar para a filha “como é legal ser diferente, que ela é única e tem uma força imensurável”. “Eu creio que ela vai fazer de tudo, a única coisa que ela não pode é produzir insulina, mas de resto, se depender da minha família, ela vai fazer tudo que ela quiser”, garantiu a mãe.

Emily e Alice Dias: " Se depender da família, ela vai fazer tudo que quiser"
Emily e Alice Dias: " Se depender da família, ela vai fazer tudo que quiser" | Foto: Arquivo Pessoal

Atenção aos sinais precoces

O diabetes é causado pela má absorção ou produção insuficiente de insulina, hormônio que garante energia para o organismo e regula a glicose (açúcar) no sangue. A doença pode levar ao aumento da glicemia, acarretando em complicações no coração, nos olhos, nervos, rins e nas artérias, além da possível amputação de membros e até morte nos casos mais graves.

O diabetes tipo 1 é uma doença hereditária e não transmissível e que acomete, principalmente, crianças e adolescentes. A SBD (Sociedade Brasileira de Diabetes) alerta os pais sobre os sinais precoces: vontade de urinas várias vezes; sede constante; alteração do apetite, para mais ou para menos, dependendo da idade; perda de peso sem motivo aparente; visão embaçada; cansaço; irritabilidade.

Já o tipo 2, o mais comum no país, ocorre quando o corpo resiste à insulina, não aproveitando o hormônio corretamente. “Vem crescendo muito devido ao aumento da obesidade e do sedentarismo. Está ligado à obesidade, aos maus hábitos alimentares e à falta de atividade física”, pontuou Jaqueline Araújo, da SBD.

Como o tipo 2 é passível de prevenção, a Sociedade promove campanhas para a alimentação saudável e o combate à obesidade e sedentarismo.

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Heloísa Gonçalves

Heloísa Gonçalves

Repórter com atuação em Educação, Saúde e Cidades.

Repórter de Educação, Saúde e Cidades, com foco em políticas públicas e cotidiano.