Ambulatório do HU de Londrina trata a fragilidade óssea
Pacientes com mais de 50 anos recebem atendimento para prevenir novas fraturas, promovendo o bem-estar e reduzindo custos ao sistema de saúde
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 07 de julho de 2025
Pacientes com mais de 50 anos recebem atendimento para prevenir novas fraturas, promovendo o bem-estar e reduzindo custos ao sistema de saúde
Heloísa Gonçalves 

Caracterizada pela perda progressiva de massa e densidade dos ossos, a osteoporose é a principal causa da fragilidade óssea que, por sua vez, leva a uma fratura a cada três segundos mundialmente. A doença é silenciosa e não dá sinais, sendo mais comum os acometidos descobrirem o diagnóstico somente após sofrerem uma fratura.
A doença é dividida entre osteoporose pós-menopausa, presente em mulheres por conta do déficit de estrogênio; senil, causada pelo envelhecimento dos ossos de idosos acima de 70 anos; e secundária, ocorrendo como consequência de outra doença. Para atestar um dos três tipos, é necessário medir a densitometria óssea e registrar uma perda maior de 25%.
Com 50 anos ou mais
Fernando Yabushita, cirurgião ortopedista do Hospital Universitário da Universidade Estadual de Londrina (HU/UEL), explicou que a queda é a principal causa das fraturas osteoporóticas. As mais comuns são do fêmur na região do quadril, do rádio na região do punho e da coluna lombar ou torácica.
Ele coordena o Ambulatório de Fragilidade Óssea do AEHU (Ambulatório de Especialidade do HU), localizado no campus universitário, que começou a funcionar como projeto-piloto em setembro de 2024. A inauguração oficial ocorreu em junho. Os pacientes são vítimas de fraturas de fragilidade com 50 anos ou mais que, ao buscarem atendimento no Pronto-Socorro do HU, são diagnosticados e avaliados com base no protocolo clínico FLS (Fracture Liaison Service), Serviços de Ligação de Fraturas, em português.

O FLS é uma abordagem coordenada e multidisciplinar de atendimento ao paciente, que otimiza a assistência, oferecendo atendimento especializado, com o principal objetivo de prevenir novas fraturas em pacientes com fragilidade óssea, promovendo o bem-estar e reduzindo custos ao sistema de saúde.
“Durante o internamento já é estratificado o risco dele (paciente). Ele já sai com o tratamento para a osteoporose, além do tratamento da fratura. Ele faz a cirurgia no HU e no ambulatório já é agendado o retorno para dois meses, com exames para ver causas secundárias, se ele tem muita fragilidade óssea e alto risco de ter novas fraturas”, elencou o coordenador.
O Ambulatório de Fragilidade Óssea do AEHU funciona às terças-feiras, das 8h às 11h, com uma média de 5 a 10 pacientes por dia.
Avaliação completa
Segundo o médico, “com o início do tratamento medicamentoso e as orientações que damos no hospital, já conseguimos perceber que o paciente chega mais bem preparado no ambulatório”. São diversas as ferramentas utilizadas para fazer o rastreio funcional dos atendidos, como bioimpedância digital e testes de força muscular, equilíbrio e mobilidade.
Além disso, há uma avaliação completa durante o retorno para evitar quedas. Com a fisioterapia ofertada, são trabalhados “o equilíbrio, a musculatura, a noção dele do corpo no espaço e reação de proteção para poder ter os músculos fortes”. O cuidado medicamentoso se alia a orientação nutricional para fortificar os ossos.
Se uma causa secundária para a fragilidade óssea for atestada, a pessoa é encaminhada para atendimento próprio da especialidade, como endocrinologista, reumatologista e nefrologista, por exemplo. Uma nova frente que está sendo abordada é a coleta de material para realizar o mapeamento genético dos pacientes.

Qualidade de vida e redução de gastos
O serviço especializado e multidisciplinar no ambulatório, ofertado via Sistema Único de Saúde (SUS), busca reduzir taxas de fratura por meio da prevenção, diagnóstico e tratamento adequado, além de melhorar a qualidade de vida dos acometidos e reduzir gastos ao sistema de saúde.
Yabushita informou que fraturas por fragilidade óssea atingem uma a cada três mulheres e um a cada cinco homens acima de 50 anos de idade.
Explicando o conceito de cascata fraturária, afirmou que “se esses pacientes não tratam, 86% têm a chance de ter uma segunda fratura em um prazo de um ano, então aumenta a taxa de mortalidade e os custos hospitalares com novas internações”.
Assistência além do ambulatório
Com o status funcional do paciente avaliado, a assistência vai além do ambulatório, com o encaminhamento para serviços locais de prevenção de quedas. Por meio de um vínculo com a Faculdade Anhanguera Unopar do Jardim Piza, zona sul, e com o Departamento de Educação Física da UEL, “eles atestam se o idoso é frágil, pré-frágil ou robusto, e dependendo dessa classificação fazem uma abordagem nesses idosos, testes funcionais para evitar a queda”, pontuou o ortopedista.
Márcio de Oliveira, responsável pelo setor de fisioterapia, indicou que a Faculdade retoma o atendimento fisioterapêutico, com o direcionamento à atividade física na UEL quando o paciente apresenta evolução. “À medida que ele tem uma melhora da sua capacidade funcional e já não é mais dependente, quando já consegue fazer as suas atividades diárias, como varrer a casa e cozinhar o próprio alimento, encaminhamos também para os grupos de educação física, onde ele faz exercícios em grupo”.
'Foi uma surpresa’
Cerca de cem pessoas foram atendidas no ambulatório em seus dez meses de funcionamento, com registro de 129 avaliações no total, contando com retornos. Todas têm mais de 50 anos, apresentando fraturas principalmente no quadril, punho e na coluna. Com 85% de predominância do sexo feminino, a média da idade dos atendidos é de 71 anos.
Paciente que se encaixa no público comum do serviço, Pedro da Silva tem 71 anos e está tratando uma fratura no fêmur, na região do quadril, dois meses após a operação no HU. Dono de um bar na região oeste, contou que não tem osteoporose, mas que “levou um mau jeito na perna e acabou quebrando”. “Não foi uma queda e não bati, até duvidei que tinha quebrado, foi uma surpresa”, relembrou.
A assistência que recebe da equipe de fisioterapia é “bem completa”, atestando sua massa muscular, idade celular, de 76 anos, e força das mãos. Disse que está se recuperando bem, com a expectativa de “continuar o tratamento e ter a recuperação completa”.

'Achei fantástico'
Lenice Araújo, pedagoga aposentada de 66 anos, não apoia os pés no chão desde o fim de abril, quando fraturou o fêmur após cair de uma altura “irrisória” e foi submetida a uma cirurgia. Foi inserida uma haste em seu osso e, desde então, só pode se locomover com uma cadeira de rodas.
“É por causa da osteoporose que foi tão grave a minha cirurgia. Como o cirurgião ainda não liberou que eu pise no chão, que eu ponha peso na perna esquerda, eu preciso vir (ao ambulatório) de ambulância deitada. É tudo pela Secretaria de Saúde, eles me trazem e esperam”, contou.
Ela lida com a fragilidade óssea há oito anos, quando veio o diagnóstico. Araújo ficou “deslumbrada” com o atendimento no espaço, relatando que se sente como objeto de estudo de uma escola, o que, “além de ser importante para o meu bem-estar, ainda vai ajudar a humanidade”.
“Fiz exame de DNA para ver como está tudo dentro de mim, fiz outro que vai ver a água, o sangue, a gordura, tudo do meu corpo, e recebi por e-mail para eu poder levar para a minha fisioterapeuta. Muito VIP mesmo, achei fantástico, porque eles investigam tudo”, considerou.

Futuro
Avaliado com estrela de prata pela Fundação Internacional de Osteoporose, o ambulatório é um dos 1.182 no mundo, localizados em 62 países, que são norteados pelo protocolo clínico FLS. Conforme o coordenador, é difícil já ter uma noção exata do progresso, considerando redução de fraturas e custos, visto que “vão meses para ter uma mudança em parâmetros ósseos e musculares”.
O trabalho é incentivado pela necessidade de Londrina, levando em conta os depoimentos que Yabushita já ouviu de idosos que “têm medo de cair, porque todo mundo já viu alguém que caiu, quebrou, morreu, ficou acamado ou cadeirante, e não querem chegar a essa situação”. Disse ainda que a cidade está ficando envelhecida, com aumento contínuo do número de pessoas da terceira idade e, assim, medidas são necessárias para cuidar dos idosos.
“A gente precisa se preocupar com essas pessoas, então o serviço vai em busca de evitar essas quedas e fraturas. A longo prazo, também queremos buscar os pacientes que não têm a fratura, através do apoio da Secretaria Municipal de Saúde, fazer uma busca ativa de quem está desassistido, possui osteoporose diagnosticada ou risco de queda”, almeja o ortopedista.

