Imagem ilustrativa da imagem Alergia alimentar não é intolerância; confira as dicas
| Foto: Shutterstock

A confusão existe, porém a relação não. Para muitos, quando se fala de alergia alimentar e intolerância o assunto é o mesmo, entretanto a primeira possui muito mais especificidades e está restrita a poucos alimentos. Já a segunda manifestação se refere a uma quantidade diversa de produtos alimentícios. Com foco na discussão da alergia alimentar como um problema global, a Organização Mundial de Alergia promove entre 7 e 10 de abril a Semana Mundial da Alergia, celebrada anualmente pela instituição e com temática diferente todos os anos, mas sempre voltada à conscientização de alergia.


A alergia alimentar é classificada como uma reação do sistema imunológico contra proteínas presentes em um alimento, sendo reconhecidas como “inimigas do organismo”. Já a intolerância acontece quando o organismo tem dificuldade de processar determinado alimento. A alergia apresenta sintomas imediatos, é mais frequente em crianças e pode ser permanente ou definitiva. A intolerância alimentar tem sintomas tardios, é generalizada nas faixas etárias e a remissão é possível a partir do momento que o produto é evitado.


“Não tem nada a ver um com o outro. A intolerância tem problemas meramente intestinais, já a alergia pode colocar em risco a vida das pessoas, dependendo da situação. Também não existe alergia à lactose. Existe intolerância que resulta na deficiência da enzima responsável pela digestão do açúcar do leite. A alergia ao leite envolve mecanismos imunológicos contra as proteínas do leite”, explicam Heloísa Simonini Delfino e Ana Paula Juliani, especialistas em alergia e imunologia pela Asbai (Associação Brasileira de Alergia e Imunologia) e especialistas em pediatria pela SBP (Sociedade Brasileira de Pediatria).



Choque anafilático



Os sintomas das duas doenças podem ser parecidos nos casos de diarreia, distensão abdominal e gases. Os sinais de alergia abrangem coceira, urticária, inchaço de olhos e boca, falta de ar, crise aguda de asma e, o mais grave, que é o choque anafilático. A causa das alergias alimentares está ligada à produção de um tipo de substância pelo organismo (anticorpos imunoglobulina E – IgE). “O indivíduo tem fator predisponente”, apontam. Pesquisas estimam que 75% dos pacientes com esta alergia tem histórico familiar.


Prevalência



Estima-se que 8% das crianças com até três anos tenham alergia. Em adultos são apenas 3%. “É mais presente em crianças porque é o momento que estão entrando em contato com novos alimentos. Também estão com sistema imunológico mais 'desbalanceado' e em desenvolvimento. Se une a isto o sistema gastrointestinal em evolução. Por isso é recomendado o aleitamento materno de forma exclusiva até os seis meses de vida”, afirma a alergologista e imunologista Heloísa Delfino. “Em crianças é mais comum evoluir para cura. Na fase adulta tende a ser mais persistente”, completa.


Menos de 10% dos casos acabam durando até a vida adulta. Na infância, os alimentos mais responsabilizados pelas alergia alimentares são leite, ovo, trigo, soja, peixe e frutos do mar. Em adultos é mais comum camarão e oleaginosas. Pacientes com doenças alérgicas apresentam uma maior incidência de alergia alimentar, sendo encontrada em 38% das crianças com dermatite atópica e em 5% dos menores com quadro de asma.


O diagnóstico é feito a partir da análise dos sintomas, tendo por base a descrição da pessoa e os sinais apresentados por ela. “Tudo parte da suspeita. Se existiram sintomas que foram diretamente relacionados à ingestão de um determinado alimento precisa procurar o alergista. Tem-se uma conversa bem detalhada com o médico, que com isso analisa se tem possibilidade de alergia alimentar. Partindo desta premissa faz o teste, que pode ser de sangue, dieta de provas. Tem o teste 'padrão ouro', que é com provocação oral. Este precisa ser realizado em ambiente adequado e pessoal capacitado”, detalha Ana Paula Juliani, alergista e imunologista.

Atenção

As profissionais chamam atenção para testes falsos que são usados de forma inadequada e que não têm nenhuma procedência científica, como teste de intolerância alimentar mediado por IgG. “O tratamento é diferente para cada tipo de paciente. Muitos são submetidos a dietas restritivas sem ter sintomas consistentes e acarreta problemas nutricionais”, alertam. “O pilar principal de um bom tratamento deve ser orientado pela dieta com restrição correta. No caso do leite, por exemplo, não é só parar de tomar leite. Não pode manipular um alimento com derivado do leite e tocar em outro e ingerir, pois há contaminação”, exemplificam.


Quando se retira um produto que causa alergia é necessário complemento alimentar, em algumas ocasiões, para que não falte a proteína no organismo. “Já existem estratégias de tentativa de introdução de tolerância com uso de alimentos processados e assados, todavia são em casos especiais. Medicamentos somente para crise alérgica e reação anafilática. Quando tem anafilaxia a pessoa precisa portar medicação de adrenalina auto injetável, que deve ser administrada imediatamente.”

Família


A família desempenha papel fundamental no tratamento, já que acaba fazendo parte da dieta. “Os familiares precisam estar empenhados, porque se o paciente ingerir quantidade mínima pode gerar reações graves. As reavaliações são a cada seis meses para crianças”, destacam. As especialistas esclarecem que não existe uma fórmula de prevenção para alergia alimentar e que a maioria das reações a aditivos, corantes e conservantes não são causadas por alergia.


Uma resolução da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) de 2017 prevê que todas as informações de lactose devem ser colocadas no rótulo, independentemente do tipo de alimento. “A partir de então ficou mais fácil, porém isto ainda não abrange produtos naturais e de padaria, o que precisa”, defendem as especialistas londrinenses.

Imagem ilustrativa da imagem Alergia alimentar não é intolerância; confira as dicas
| Foto: Folha Arte


'Em dois minutos

ficou todo inchado'

Hoje com cinco anos, Felipe Yamaoka começou a apresentar os sintomas de alergia alimentar logo depois do nascimento. “Ele tinha muitas erupções na pele. Fomos em dermatologista, trocamos de pediatra, os médicos passavam hidrante e falavam que era dermatite atópica. Usávamos sabonete específico e não melhorava, foi indicado mudar, mas não falavam nada de alergia”, conta a mãe do garoto, a dona de casa Kelly Sayuri Yamaoka. A família é moradora de Assaí (Região Metropolitana de Londrina).


Somente depois que Felipe apresentou choque anafilático, ao tomar um leite fermentado, que veio a descoberta de alergia. “Em dois minutos ficou todo inchado, não conseguia respirar direito. Corremos para a clínica e aplicaram adrenalina. Com isso que ficamos sabendo que é alérgico à proteína do leite”, relata. “O pediatra em nossa cidade falou para esperarmos até ele completar um ano e meio para fazer teste. Passou este tempo, foi feito teste de sangue e, segundo ele, deu alergia à proteína da soja e amendoim também”, completa.


A família então resolveu levar o filho até uma especialista da área. Foi realizado o teste oral e veio o diagnóstico correto, de que Felipe tem alergia somente à proteína do leite da vaca e severa. “Foi restringido tudo que tem proteína do leite na dieta dele. Falam que com tempo costuma melhorar, porém com ele foi aumentando a alergia. O caso dele é raro”, frisa.


De acordo com a mãe, o menino iniciou um procedimento em 2017, inovador para estas questões na época, que melhorou muito sua qualidade de vida. “Agora ele pode ingerir alimentos com leite, mas para isso precisa estar com 'estômago cheio', não pode fazer nenhum exercício físico antes. Quando o corpo aquece ajuda na apresentação de reação alérgica. Todos os dias tem que ingerir, no mínimo, 150 mililitro de leite”, diz.


A mãe aponta que todo este processo foi um desafio para os pais, mas que todos estão conseguindo superar juntos. “Como amamentava, não ingeria nada com leite, assim como em casa não tinha leite para não contaminar objetos. O que comprávamos já ligávamos no serviço de atendimento ao cliente para saber o que tinha no produto. Nas festinhas levava tudo para ele comer”, relembra. “Hoje o Felipe tem alimentação saudável, porque não aprendeu a comer besteiras. Depois deste tratamento até experimentou vários alimentos com leite, mas não gostou. Atualmente estamos aliviados, porque não tenho mais medo dele colocar uma bala na boca e passar mal”, comemora.

mockup