A polêmica sobre imunização contra HPV
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segunda-feira, 21 de dezembro de 2015
Marilayde Costa<br> Reportagem Local 
Médicos de várias partes do País e do mundo se reuniram, no mês passado, para participar do 9º Congresso da Sociedade Mundial de Doenças Infecciosas Pediátricas (WSPID, sigla em inglês), no Rio de Janeiro. Entre as principais discussões no evento, estavam os desafios dos programas de imunização em adolescentes e estratégias para aumentar a taxa de cobertura. Segundos os especialistas, a imunização desta faixa etária é um grande desafio para a saúde do mundo, já que estudos revelam que a taxa de adesão desse grupo é baixa, colocando uma parcela de adolescentes e adultos jovens suscetíveis a doenças que já são imunopreveníveis, como hepatite A e B, meningocócica e HPV (sigla em inglês do Papilomavírus Humano), vírus sexualmente transmissível que pode causar o câncer de colo de útero - o terceiro tipo de tumor mais comum nas mulheres.
Quase um mês após o evento, o Ministério Público Federal em Minas Gerais ajuizou, na última quinta-feira, ação civil pública pedindo que a Justiça Federal proíba a rede pública de Saúde de aplicar a vacina contra o HPV em todo o território nacional. A ação também pede a nulidade de todos os atos normativos da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) que autorizaram a importação, produção, distribuição e comercialização da vacina no País. De acordo com a ação civil pública, não existe comprovação de que a vacina seja eficaz contra o câncer de colo de útero, além de não haver estudos apontando seus efeitos colaterais.
A gerente de Epidemiologia da Secretaria de Saúde de Londrina, Sônia Fernandes, lembra que a vacina de HPV é bastante segura sendo inclusive recomendada por vários organismos internacionais, incluindo a agência CDC (Centros de Controle e Prevenção de Doenças) do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos. "A vacina de HPV, infelizmente, tem forte objeção da comunidade por estar associada ao início da atividade sexual, e infelizmente pela divulgação de possíveis eventos adversos ocorridos com o uso da mesma. Os dois motivos não se justificam: se a adolescente cresce em ambiente saudável, com diálogo com os pais, o início da atividade sexual estará baseado em outros fatores que não a aplicação da vacina. Já com relação aos eventos adversos não houve nenhum que efetivamente colocasse em risco a vida das adolescentes", reforça. Ficou provado que as 11 jovens que passaram mal após tomarem a vacina contra HPV, no ano passado em Bertioga, tiveram uma reação emocional, não física.
O pediatra Ricardo Becker Feijó, professor associado de pediatria e adolescência na Faculdade de Medicina da UFRGS, participante do 9ºCongresso WSPID, lembra que quando o Ministério da Saúde anunciou, em 2013, a inclusão da vacina contra o HPV ao calendário do Sistema Único de Saúde (SUS), como medida complementar às demais ações preventivas do câncer de colo de útero, a taxa de vacinação chegou quase a 100%, mas, em seguida, houve uma queda brusca na procura em todo o País.
O cenário deste ano segue a tendência de queda de vacinação em relação ao HPV. Em Londrina, a adesão à primeira dose caiu de 81%, em 2014, para 52%, em 2015. Já a 2ª dose, passou de 51,2% para 64%, segundo dados da secretaria municipal até o dia 9 de dezembro. No Paraná, nos mesmos anos, a 1ª dose passou de 96,89% para 53,19% e a 2ª dose de 58,74% para 23,09%, até do dia 24 de novembro deste ano.
"O que vemos no Brasil é o mau uso da informação. Mães, pais e familiares estão em dúvida se a vacina deve ser utilizada ou não, ou que tomam para si a decisão de não fazer por achar que é mais certo do que fazer. Geralmente acontece por falta de informação. Então a ideia não é combater estes grupos, mas pelo contrário esclarecer estes grupos", enfatiza Feijó.
A farmacêutica Juliana Andrade Zoli relata que viveu um conflito interno, no ano passado, antes de tomar a decisão de administrar a vacina em sua filha, de 10 anos. Isto porque em sua família há médicos, e alguns não recomendavam a mesma por ser muito recente no País. Sua decisão veio após várias orientações de especialistas da área e leituras de artigos sobre a vacina. "Entre risco e benefício, eu passei a acreditar mais no benefício dela. Minha filha tomou este ano e eu espera uma reação maior, mas ela só teve dor no local da aplicação. Acho que tem mais divulgação negativa sobre esta vacina. Afinal, toda vacina pode dar evento adverso, não é só a HPV", conclui.
Feijó ainda reforça que, apesar de haver cem tipos de HPV, a vacina previne contra quatro, que são responsáveis por 75% dos tipos de câncer de colo de útero, mas também causam verrugas genitais em meninos, câncer de pênis e de ânus.
Atualmente, as vacinas disponibilizadas pelo Programa Nacional de Imunizações (PNI) aos adolescentes são a dupla bacteriana (difteria e tétano), tríplice viral (caxumba, sarampo e rubéola), febre amarela, hepatite B e HPV (para jovens do sexo feminino). Lembrando que se os mesmos já têm o esquema básico quando criança, resta apenas o reforço da dupla bacteriana. (Com Agência Estado)

