Amputar um membro, perna ou braço, e mesmo assim continuar sentindo dor ou coceira nele, ou ainda sentir exatamente a posição em que ele está é muito comum. Algumas pesquisas apontam que a Síndrome do Membro Fantasma atinge cerca de 80% dos amputados nas primeiras semanas após a cirurgia. Sentir o membro amputado não traz problemas ao paciente. A dificuldade se dá quando, junto da sensibilidade, aparece a dor, que não é controlada por analgésicos.
Chama atenção o fato de alguém sentir uma forte dor em um membro que não existe, e quem pensa que o problema é meramente psicológico está enganado. A medicina explica que o cérebro tenta preservar o paciente íntegro, por isso a síndrome do membro fantasma está relacionada ao sistema neurológico. De acordo com o médico neurologista José Breno Ferraz Júnior, a situação é comum entre os amputados. ''Quando cortamos o membro provocamos uma lesão nos nervos e o cérebro precisa passar pelo processo de perda do segmento. O organismo precisa de um tempo para fazer o rearranjo do esquema corporal'', afirma.
Ferraz Júnior detalha que existem dois tipos de dor que podemos sentir. ''A dor nociceptiva é derivada de alguma lesão no tecido, que aparece quando fazemos um corte na pele. Ela dói naquele ponto. Já a dor neuropática aparece quando há uma lesão em algum ponto do sistema nervoso. A dor fantasma é deste tipo. É semelhante às dores dos diabéticos, das pessoas que têm fibromialgia e dores crônicas'', explica.

Medicação

Na maioria das vezes, o sintoma da dor fantasma não passa com o uso de analgésicos e é necessário o uso de remédios que agem no sistema nervoso central. ''Os medicamentos mais indicados para controlar estas situações são os neuromoduladores. Alguns são antidepressivos, outros são anticonvulsivantes. Eles servem para neutralizar dores relacionadas ao sistema nervoso''.
De acordo com o médico, a dor fantasma é mais comum nos pacientes que já tinham um processo de dor crônica ou naqueles que passaram por um processo traumático de amputação. ''Entra em questão também o processo de valoração que a pessoa tem pelo membro. Uma pessoa que dependia da mão para trabalhar tem mais chance de ter a dor fantasma. O significado que o membro tem para aquela pessoa tem relação com a dor'', destaca. Ferraz Júnior acrescenta que o Sistema Límbico é responsável por regular esta sensação, já que ele faz o organismo responder fisicamente a um estímulo que é emocional, no caso das pessoas que supervalorizam o membro perdido.

Sistema nervoso


A dor fantasma é ligada a uma lesão no sistema nervoso e geralmente aparece distante do local do coto (parte restante do membro amputado). ''Se a pessoa amputa na altura da coxa ela pode sentir a dor na panturrilha ou no pé. É uma dor persistente que parece uma queimadura, mas que geralmente passa com o tempo''.
O neurocirurgião e diretor da Sociedade Brasileira para Estudos da Dor, José Oswaldo de Oliveira Júnior, acrescenta que o estudo da dor fantasma está associada à síndrome do membro inexistente. Ele reforça que em geral o sofrimento vivido pela pessoa depende muito de como foi a perda do membro. ''O paciente que passou por momentos de dor no membro antes de fazer a amputação tem mais chances de ter a Síndrome do Membro Fantasma'', explica. Ele enfatiza que por este motivo é fundamental fazer o controle da dor antes de realizar a cirurgia. ''O tratamento da dor precisa ser precoce e profilático antes da amputação'', orienta.
O médico explica que o que provoca a dor fantasma é a falta de estímulo do membro. ''É uma dor decorrente do mal funcionamento do sistema nervoso'', ressalta. Outro problema enfrentado por estes pacientes é o preconceito, já que muitos não comentam sobre a dor fantasma porque têm medo de serem julgados como loucos. ''Sabemos que há pacientes que fazem uma censura da própria queixa por medo da reação das pessoas. O impacto emocional do problema é muito grande e às vezes nem o próprio paciente aceita que tem dor no membro fantasma'', alerta.
Estudos apontam que a dor é o fator que mais prejudica a qualidade de vida das pessoas. As pesquisas realizadas em torno da dor fantasma são inconclusivas. O neurocirurgião afirma que a incidência do problema é variável já que nem sempre o paciente assume que sente a dor.


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