Nos anos 50, a cidade conheceu a força dos agricultores. Com suas famosas marchas pela produção, eles mostraram às autoridades da capital que Londrina era uma caixa de ressonância dos problemas nacionais e, embora muito jovem, não gostava de ficar à margem dos fatos. Talvez, por isso, os presidentes sempre enviaram seus ministros para participar dos principais eventos da cidade.
  No início dos anos 60, a cidade debatia os mesmos problemas que os principais centros urbanos – claro, um debate incipiente, porém superatualizado e acompanhando principalmente o ritmo de São Paulo. Londrina já tinha suas lideranças, e muitas delas organizaram uma passeata de apoio ao golpe de 64, enquanto os núcleos mais à esquerda perdiam pontos com a saída de cena de seus ícones – como o jornal esquerdista Última Hora, de Samuel Wainer, cuja redação em Londrina foi fechada e apedrejada pelos conservadores.
  Nos anos 60, a resistência que contestava o stablishment era dos jovens ditos ‘‘politizados’’, ou dos hippies. Os conservadores eram unidos. Havia londrinenses entre os milhares de estudantes que ‘‘caíram’’ em Ibiúna, no famoso e ‘‘secreto’’ Congresso da UNE. O Congresso foi um fracasso, mas para alguns grupos locais, era como se a cidade também estivesse entre os escaladores do Everest. Nas escolas, o movimento estudantil fervilhava, mas não era apenas na universidade onde as coisas aconteciam – entre os secundaristas germinava uma nova geração que buscava novas formas de expressão cultural. Em 68, surgiu o Festival
Universitário de Teatro,
que perdura até hoje.
  Nos anos 70, o movimento estudantil cresceu e ajudou na politização da cidade e, como acontecia num fenômeno nacional, toda a esquerda se juntava para combater a censura e a ditadura. O MDB explodiu em 1974 com uma votação espetacular. O empresário Leite Chaves se torna o senador mais votado da história do Paraná até então. Em 77, os militares cancelam à última hora um debate em Londrina sobre Constituinte, que teria a presença do jurista Aliomar Baleeiro, que no passado havia pertencido aos quadros da conservadora UDN.
  Londrina novamente elege uma bancada oposicionista combativa. Em 1978, a ditadura estava isolada mais do que nunca, mas não agonizava. Reagiu com uma operação de caça a velhos comunistas, a chamada operação Barriga Verde, a última grandme operação que o Exército comandou nas principais cidades do Sul do País para tentar conter a onda democrática. Em Londrina foram presas várias pessoas, algumas foram torturadas.
  Alencar Furtado estava em Londrina quando recebeu a notícia de sua cassação pelo presidente Geisel, depois de um discurso inflamado em que criticou o governo. Alencar era uma das lideranças do grupo ‘‘autêntico’’ do MDB, ao lado de Fernando Lyra, Chico Pinto, Lisaneas Maciel. Outros parlamentares de Londrina, como Osvaldo Macedo, Hélio Duque e Álvaro Dias tiveram atuação destacada nos ataques parlamentares ao governo, sob a liderança de Ulysses Guimarães.
  O movimento nacional pela Anistia teve uma representação forte em Londrina, comandada, entre outros, pelo escritor Domingos Pellegrini. Os professores da rede pública estadual surpreenderam o País com uma greve memorável, de muitos dias, que pôs em xeque a autoridade do governo – e suas principais lideranças eram de Londrina. A cidade recebeu a visita do general Euler Bentes, da reserva, que ensaiou disputar a presidência da República como ‘‘anticandidato’’ ao lado do gaúcho Paulo Brossard. O movimento não prosperou, mas Londrina era rota obrigatória dos políticos que desejavam projeção nacional.
  No início dos anos 80, com a reformulação partidária, a cidade teve representações de todas as novas siglas, inclusive o PT. Em 84, Londrina assistiu pela TV a votação pelas diretas – e chorou com aquele resultado deplorável junto com todos os brasileiros. A caravana de Ulysses, Mário Covas, Osmar Santos e Teotônio Vilela também discursou em Londrina, durante a campanha das Diretas Já. E o londrinense cantou o hino com Fafá de Belém.
  A morte de D. Geraldo Fernandes, arcebispo conservador, uma das vozes mais influentes da Igreja Católica no País e que durante décadas cuidou de seu rebanho ‘‘protegendo-o’’ das mudanças e tempestades mais à esquerda, representou uma alteração importante nos rumos da Igreja Católica na região Norte do Estado. Seus sucessores foram sempre de linha moderada. Como a dizer que a cidade se renovava: dispensava obrigações carcomidas e superadas, mas também se resguardava de caminhos esquerdistas – pois quem disse que a cidade era esquerdista?
  Talvez gostasse mais do estilo populista. No início dos anos 90, Antonio Belinati cumpria seu segundo mandato na prefeitura, sua mulher, Emília, era deputada estadual, um irmão era deputado federal e outro, vereador. No final da década, o filho Antonio Carlos foi o segundo mais votado para a Assembléia Legislativa. Em seguida, a cidade viu pipocar denúncias contra o terceiro mandato de Belinati. O ano 2000 começa com seu afastamento do cargo após um processo que movimentou todas as paixões políticas da cidade. Londrina inaugurava uma nova forma de fazer oposição: via Ministério Público.
  A cidade se destacou por eleger representantes da oposição, mas às vezes, a direita estava na oposição (no plano nacional). Londrina elegeu Collor, votou duas vezes em Fernando Henrique, e depois em José Serra. Nunca elegeu Lula, por exemplo. No que tange ao plano municipal, os critérios de massa podem ser outros, mais invisíveis, mas pelo visto, comporta preferências que incluem paixão e obras.

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