- TRANSTORNO EMOCIONAL - Quando o esgotamento entra no jogo
PUBLICAÇÃO
domingo, 24 de maio de 2015
Micaela Orikasa<br> Reportagem Local 
Você já ouviu falar na Síndrome de Burnout? Apesar de ser um distúrbio psíquico ainda pouco divulgado entre a população, tem atingido uma parcela de profissionais das áreas de saúde, educação, segurança e também esportiva.
A síndrome é caracterizada por um estado de tensão ou exaustão emocional em decorrência de uma condição de trabalho desgastante. Seu diagnóstico é dificultado porque pode ser confundida com outras patologias, como a própria depressão.
Porém, cada vez mais profissionais, como psicólogos e psiquiatras, vêm tratando do tema com maior profundidade. Apesar da definição de Burnout ter sido revelada há mais de quatro décadas, em alguns campos se têm poucos estudos, como no esporte.
Pensando nisso, o professor da Unopar em Londrina, Rafael Octaviano de Souza, mestre em Exercício Físico na Promoção da Saúde, acaba de produzir o livro "Burnout Atletas Jovens", sob orientação do professor Dartagnan P. Guedes, que traz uma pesquisa com atletas paranaenses e os fatores de risco para o desenvolvimento da síndrome.
"Nossa pesquisa busca identificar os fatores que vão levar o atleta a abandonar o esporte, além de despertar a atenção de treinadores, psicólogos, pais e os próprios atletas em relação ao Burnout", diz.
Foram entrevistados 1.217 atletas de 12 a 17 anos do Paraná, nos Jogos da Juventude de 2013. O Burnout foi correlacionado com idade, sexo, histórico de competições e principais resultados alcançados. Segundo Souza, a síndrome foi classificada em escalas elevada, moderada e baixa.
"O elevado correspondeu a 5,2% dos atletas que tiveram pontuação alta para três dimensões, que é exaustão física e emocional, reduzido senso de realização e desvalorização esportiva. Já 22% dos entrevistados apresentaram nível moderado", explica.
Sendo assim, chegou-se a conclusão que 27% desses atletas já sofrem exaustão física e emocional, podendo desenvolver o Burnout. "Os 5% que apresentaram um resultado elevado, provavelmente vão abandonar o esporte", completa.
As três dimensões citadas pelo professor caracterizam os principais sintomas no contexto esportivo, sendo a exaustão relacionada à quantidade ou volume de treinos e o desgaste da autocobrança ou dos próprios pais, treinadores e torcida.
"Passando por isso, o atleta passa a apresentar o segundo sintoma que é o reduzido senso de realização pessoal, ou seja, ele passa a desconfiar de sua destreza para prática esportiva. O terceiro fato é a desvalorização esportiva, onde outras atividades vão ganhando prioridade, o que acaba culminando com o abandono total do esporte", detalha.
O professor Souza comenta que três fatores chamaram a atenção no estudo. Segundo ele, atletas do sexo feminino apresentaram índices mais elevados em relação ao sexo oposto. Para ele, uma justificativa é a capacidade de enfrentamento dos problemas (estratégia de coping).
"A mulher absorve um pouco mais dos problemas. Uma outra situação é que as meninas têm um apoio social menor, inclusive entre a família", afirma. Outro fator é a modalidade individual, em função de uma exigência física e psicológica muito maior.
"Porque o atleta tem que treinar por ele. Se ele ficar, por exemplo, 60 dias com uma contusão, os resultados dependendo da modalidade, voltam à estaca zero. Na modalidade coletiva isso não acontece. Mesmo que o atleta se machuque, a equipe continua", comenta.
Já o último dado que chamou bastante a atenção do educador físico é que o volume de treino que o atleta tem é inversamente proporcional ao Burnout. Isso significa que os atletas que treinam mais têm índices menores da síndrome.
"Aqueles que têm um volume mais baixo de treinamento, possivelmente, por apresentarem índices elevados de Burnout, já estão se afastando do esporte gradativamente", diz. Toda essa avaliação apontou a necessidade de se atentar mais aos fatores de risco, visando uma reorganização do esporte.
Para o autor da pesquisa, apesar de ser um transtorno difícil de ser identificado, fica claro a importância do apoio psicológico. Segundo ele, a cada dia, os atletas jovens trabalham como se fossem profissionais, embora não recebam salário para isso.
"Eles treinam todos os dias, viajam e têm cobranças. Hoje, ainda com pouca idade, possivelmente estejam motivados, mas acredito que aos 18, 19 anos, quando o esporte começar a dividir atenção com outras atividades, esse desgaste comece a aparecer", ressalta.
Na casa da assistente administrativa Érica Salvador Fingoli, a rotina da família é bastante baseada nos treinos da filha Thainá, de 10 anos. Ela começou a treinar Ginástica Rítmica há três anos e já participou de competições. Ela tem treinos diários de cinco horas e, quando necessário, também aos fins de semana.
Thainá gosta muito da modalidade e a expectativa da família é que ela se profissionalize. "Vai ser uma escolha dela, mas estamos fazendo o possível para que ela tenha todas as oportunidades", conta a mãe, revelando que existe uma preocupação com a sobrecarga e a cobrança sob a filha.
"Tentamos respeitar o tempo de sono dela, as horas de lazer e de brincar com as amigas do prédio. Em casa a gente tenta mostrar que não há pressão quanto ao desempenho dela. A modalidade já é bem rígida e sabemos que isso não pode ocorrer em casa", diz.

