‘‘É tão bom, mas é tão difícil juntar as letras, né?’’. A frase de Nedina Rosário, 48 anos, que trabalha há 23 anos como copeira da Copel, resume bem o desafio dos adultos que resolvem recuperar o tempo perdido e enfrentar uma sala de aula para aprender a ler e escrever.
Aluna há nove meses do programa Luz das Letras, um projeto elaborado pela própria Copel com objetivo de alfabetizar adultos com o uso de computadores, Nedina comemora seus primeiros resultados. ‘‘Já estou quase lendo’’, diz ela, que nunca conseguiu frequentar uma escola.
Sua história é típica entre os analfabetos. Foi criada no sítio, na cidade de Adrianópolis, Região Metropolitana de Curitiba. De família humilde, teve que trocar a escola para trabalhar na roça e ajudar a cuidar de seus quatro irmãos menores.
Foi este também o drama de sua colega de emprego, Lucimar Calheiros, 43 anos, há 12 como copeira na Copel. Filha entre 12 irmãos em Minas Gerais, passou a infância na roça e cuidando dos menores. Veio para Curitiba com 13 anos, casou aos 16, mas como o marido era ciumento nunca pôde ir à escola. ‘‘Eu me renovei, acho que fiquei uns dez anos mais nova’’, diz, contando que já consegue ler placas e até escrever cartinhas.
Para os professores, voluntários ou não, é justamente esta força de vontade dos adultos que os incentiva a dar aulas. ‘‘Eu adoro fazer este trabalho, porque os adultos interagem mais, já que estão no mesmo nível que a gente’’, conta a professora Eloá Bindi, uma das quatro professoras contratadas pelo projeto Luz das Letras.
Já o professor Rubens Lederman, 32 anos, que dá aula de educação física no Colégio Bom Jesus e participa como voluntário no Programa Voluntário de Alfabetização de Jovens e Adultos (Proalfa) da própria escola, conta que ‘‘chega a emocionar ver quem não teve oportunidade de estudar no tempo certo, correr atrás para estudar’’.
Outra unanimidade entre os professores são os efeitos positivos na auto-estima das pessoas. ‘‘Eu me sinto muito mais feliz, mais vaidosa’’, diz Katia Patrícia Messias Chu, 24 anos, que está há quatro meses no projeto do Bom Jesus. Casada, com um filho, ela trabalha até a madrugada na lanchonete com o marido, no bairro Prado Velho. Mesmo assim, não mede esforços para não perder nenhuma aula. ‘‘Antes eu só via as fotografias nas revistas, agora já consigo ler’’, diz.
Outra que não perde a aula é a doméstica Maria Claudete Moreira, 50 anos, que diz que antes ‘‘não conseguia nem ler o nome do ônibus’’. No Proalfa desde o início do ano, ela conta que ainda não sabe ler, mas já conhece algumas letras e já arrisca algumas palavras. ‘‘sabão omo eu já leio’’, conta, lembrando que muitas vezes pede ajuda a seus filhos de 10 e 12 anos para conseguir ler. (M.G.)

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