Voluntários contra o analfabetismo
PUBLICAÇÃO
sábado, 04 de agosto de 2001
Maigue Gueths<BR>De Curitiba 
Desde agosto do ano passado, de segunda a quinta-feira, o cuidador de carros João Maria Alves da Silva, 63 anos, incorporou mais uma atividade a seu dia-a-dia. Às 19 horas ele chega na sede do Colégio Bom Jesus Água Verde, em Curitiba, toma uma sopa reforçada e meia hora depois já está sentado na sala de aula para aprender a ler e escrever. No mesmo horário, todas as quartas-feiras, é a vez da professora Milena Santiago dos Passos Lima, 23 anos, abrir mão de sua noite de folga junto ao marido para dedicar duas horas de sua semana à vontade de ensinar jovens e adultos que não tiveram oportunidade de estudar no tempo certo.
João Maria é apenas um entre uma multidão de quase 16 milhões de brasileiros analfabetos. Um número considerado bastante alto, apesar da taxa de analfabetismo no Brasil estar caindo nos últimos anos, graças ao trabalho voluntário de pessoas como Milena, iniciativas governamentais e de empresas, que se empenham em desenvolver projetos para erradicar o analfabetismo.
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE) mostram que o índice de analfabetos absolutos, ou seja, de pessoas que não sabem sequer escrever o próprio nome, passou de 17,2% em 1992 para 13,3% em 1999. A realidade, no entanto, toma proporções mais drásticas, quando são computados os números dos analfabetos funcionais, ou seja, aqueles que não conseguiram cursar o ensino fundamental e em sua maioria sabem apenas assinar o nome e reconhecer algumas letras.
Em 1999, o IBGE computou 29,4% da população brasileira nestas condições, registrando um decréscimo em relação a 92, quando haviam 36,9% analfabetos funcionais. Como já era de se esperar, o Nordeste continua sendo a região mais sofrida do País, com as mais altas taxas de mortalidade infantil e materna, baixos salários, falta de acesso à educação e elevada taxa de analfabetismo. Para ter uma idéia, o índice de analfabetos funcionais chega a 53% em estados como o Maranhão e Piauí. Nas áreas rurais, a situação é ainda mais crítica. No estado de Alagoas, por exemplo, quase metade (49,7%) da população da área rural é completamente analfabeta.
A Região Sul continua com os menores índices de analfabetismo do Brasil. Hoje, 7,8% são analfabetos absolutos e 29,4% analfabetos funcionais. O Paraná, no entanto, vem fazendo feio frente aos outros dois estados da região. Enquanto em Santa Catarina e Rio Grande do Sul, 8,7% da população é analfabeta absoluta, no Paraná este índice é de 12,8%. Entre os funcionais, a situação é semelhante: o Paraná tem 26,4% de pessoas nestas condições, contra 19,7% em Santa Catarina e 18,5% no Rio Grande do Sul.
A justificativa de que o estado é eminentemente agrícola, contando com grande parte de sua população na área rural, onde há mais dificuldade de acesso à educação, não convence. O Rio Grande do Sul, por exemplo, também tem sua economia baseada na agropecuária. Dados do IBGE mostram que para melhorar seus índices o Paraná precisa, urgentemente, investir em educação nos pequenos centros. Prova desta situação é que o índice de analfabetos absolutos na Região Metropolitana de Curitiba é uma das mais baixas do País: 5,1%. Já na área rural, o Paraná tem 16,4% de analfabetos contra 10% nos outros dois estados do Sul.


