A operadora de caixa Luci de Souza Santos, de 35 anos, morou na Espanha e em Portugal por nove anos e retornou ao Brasil em 2011. ''Mas ainda hoje penso em voltar à Espanha. Ainda não consegui me readaptar ao Brasil totalmente'', diz Luci.
Quando foi para Madri, Luci começou a trabalhar fazendo pequenos serviços, como limpar banheiros e passar roupa. ''Nos primeiros seis meses, foi difícil, cheguei a passar fome'', lembra. Arranjou um emprego fixo como auxiliar de cozinha e foi tocando a vida na capital espanhola. Entretanto, quando veio a crise econômica, logo sentiu os efeitos.
''Fiquei desempregada e vivendo de seguro-desemprego por um tempo. Tentei emprego em Lisboa, fiquei lá seis meses, e também não consegui. Fiquei mais dois meses em Madri e então decidi voltar para o Brasil'', relata. As dificuldades de readaptação foram grandes. ''Na Espanha, é mais correria, o povo vive mais ocupado, é trabalho, trabalho. Aqui, quando cheguei, fiquei desempregada durante quatro meses. Tive muitas dificuldades nos primeiros meses, mas aqui eu tinha parentes para ajudar'', afirma a operadora.
''Eu apresentava currículo e não queriam me contratar, diziam que eu estava acostumada a ganhar em euro, que pelo meu currículo eu conseguia coisa melhor'', afirma Luci. Ela conseguiu emprego como atendente de telemarketing e depois como operadora de caixa. Mas ainda sente um estranhamento na volta à rotina no seu país de origem.
''Na Espanha tudo é mais limpo, organizado. Você vai a um posto de saúde e é bem atendido. Aqui, tem muita dificuldade'', compara. ''Cheguei a pensar em voltar para a Espanha, mas as pessoas que eu conheço lá me dizem que está difícil. A gente vê as notícias também. E eu não teria dinheiro para a passagem. Se não fosse a crise, até tentaria voltar.''
A exemplo de Luci, nos últimos anos muitos brasileiros tiveram que se readaptar ao País. De acordo com estatísticas do último Censo Demográfico, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), entre 2005 e 2010 aproximadamente 174,6 mil brasileiros retornaram após um período morando no exterior. Foi praticamente o dobro do registrado entre os anos de 1995 e 2000, quando 87,9 mil nascidos no Brasil voltaram de outros países. No quinquênio 2005-2010, estourou a crise econômica nos Estados Unidos, Europa e Japão, com efeitos sentidos até hoje.
A psicoterapeuta Sylvia Duarte Dantas, coordenadora do Núcleo de Pesquisa e Orientação Intercultural da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), aponta que a readaptação ao Brasil pode ser problemática, já que o retorno muitas vezes ''produz uma sensação de desencontro e desajuste inesperados''.
''A questão é que o retorno é de fato uma nova migração, mas agora para o seu próprio país. E se inserir novamente não é fácil. Comumente tem-se a sensação de que se está por fora do que está acontecendo, principalmente para quem está buscando se inserir no mercado de trabalho'', diz a psicoterapeuta. ''Além disso, vive-se todo o contraste, quem retorna de países ditos de primeiro mundo estranha a morosidade dos serviços, a enorme desigualdade social do País, a burocracia, o 'jeitinho' que atravessa as relações e mesmo a maneira mais descontraída, afetiva de se relacionar. Há um período nesse processo em que a pessoa não se sente pertencente a lugar algum, sente-se marginal em relação tanto à cultura do país onde viveu quanto à cultura de seu país'', completa.
Sylvia alerta que ''isso pode gerar um retraimento da pessoa, que não se sente compreendida pelas pessoas ao seu redor e (vive uma) sensação de instabilidade, com a frequente dúvida se deve voltar a emigrar, mesmo que isso não seja possível no momento, o que pode gerar estados depressivos''.

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