As marcas no corpo já cicatrizaram, mas os depoimentos de Claudete e Roberta (nomes fictícios) revelam que as feridas emocionais continuam profundas. Duas mulheres distintas mas com a mesma história silenciosa de sofrimento e violência física e psicológica. Lembranças latentes de dias que gostariam de esquecer. Só agora porém, vivendo na Casa Abrigo em Londrina, elas tentam mudar o rumo de suas vidas.
Ainda com muito medo dos ex-companheiros - ambas sofreram ameaçadas de morte -, elas aguardam ''escondidas'' a concessão da medida protetiva judicial. ''Sei que a medida é boa, mas não me sinto segura. Ele é muito violento, certamente vai rasgar o papel'', desabafa Claudete, que acredita que sua única saída é fugir. ''Se souber que ele está preso, tudo bem. Mas se estiver solto, não vou ficar tranquila. Vou sempre viver com medo''. Seu desespero tem nome e sobrenome: o agressor disse que se mataria após acabar com a vida dela e da filha.
Roberta vive a mesma sensação e acha que com ou sem medida protetiva não há lugar seguro para ela na cidade. ''Vou mudar de estado pra ele não me encontrar. Aqui não dá pra ficar, pois não tenho onde me esconder'', conta a mulher, que deseja voltar a dormir em paz. ''Tinha muito medo. Chegou uma hora em que não dormia mais, não tinha fome e perdi totalmente a vontade de viver'', confessa.
Desfecho trágico
O sentimento de medo das duas mulheres é semelhante ao de outras milhares Brasil afora. E, mais grave ainda, é saber que a violência se estende, boa parte das vezes, a toda uma família.
Tragédias recentes são a prova dessa vulnerabilidade. Há três semanas, um quádruplo homicídio em Ibiporã praticamente dizimou uma família inteira. Inconformado com a separação, Marcos Antonio Antunes, 29 anos, matou a tiros e golpes de facas a ex-companheira, os pais dela e a enteada de 13 anos.
Valquíria Murges Alves, de 36 anos, já havia saído de casa em várias ocasiões. Da última vez, tinha ido com os dois filhos morar no sítio dos pais depois de sofrer mais agressões. Valquíria tinha obtido medida protetiva em 2007 contra o marido, referente a quatro ocasiões diversas, que incluia a proibição dele se aproximar da mulher. Antunes está foragido e a polícia continua as investigações.
Na última segunda-feira, uma criança de apenas um ano e sete meses morreu após ser espancada pelo pai, Ramos de Macedo. A família apresentava um histórico de sucessivas agressões físicas. A mãe do menino era constantemente vítima de maus tratos. Após denunciar o marido, ela foi encaminhada a um abrigo, mas voltou a morar com o companheiro. Neste período, a criança também foi retirada dos pais, ao menos, duas vezes pelo Conselho Tutelar, mas foi devolvida após análise técnica. Neste caso, não havia pedido de medida protetiva.

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