'Vivemos em uma prisão familiar'
Menino de Q.I. elevado, o irmão do comerciante André (nome fictício) teve infância e adolescência normais até começar a apresentar sintomas de esquizofrenia. "Ele sempre foi muito inteligente, sociável e comunicativo." Mas, um ano após entrar no curso superior, começou a apresentar comportamentos estranhos. "Meu irmão ficou sabendo de alguns comentários sobre sua vida particular. Isso o incomodou de tal maneira que começou a ter mania de perseguição."
O rapaz estava com 22 anos na época e os sintomas foram piorando a cada dia. "Ao presenciar um amigo levando um tiro na cabeça, a doença se manifestou de vez", lembra André. O rapaz passou a ficar trancado no quarto e ter oscilações de humor. Não deixava ninguém mexer em seus pertences, parou de comer e começou a falar com a televisão.
Sem saber o que estava, de fato, acontecendo, os pais pensaram que se tratava de uso de drogas. "Até encontrarmos um profissional que realmente fizesse o diagnóstico correto, foram mais de seis anos de crises e surtos. Em um deles, com uma faca na mão, ele dizia que mataria nossos pais; tive de ir para cima e impedir. Em outro, quebrou todos os equipamentos de uma sala da universidade", conta.
Hoje, aos 39 anos de idade, com a doença sob controle, o rapaz ainda não sai, nem fica sozinho em casa. "Nossas vidas mudaram completamente; tanto ele quanto nós vivemos em uma prisão familiar. As pessoas não entendem e não o aceitam", lamenta o comerciante, acrescentando que todos na família chegaram a ficar doentes. "Minha mãe teve um AVC. Eu comecei a ter indícios de mania de perseguição também."
Mais conformado com a situação, André diz que já chegaram a gastar cerca de R$ 3 mil mensais com o tratamento do irmão. "O único remédio que consegue controlar a doença dele é importado e caríssimo. Bancamos por muito tempo, mas após uma intervenção judicial, passamos a receber do Estado", conta, ressaltando que anteriormente o irmão tomou remédios que o fizeram engordar mais de 40 quilos e dormir constantemente, além de ter delírios. "Viver daquele jeito não é digno." (M.T.)





