A atriz Renata Santana, mãe de Iara, de 4 meses, e Cauê, de 5 anos, teve duas experiências diversas de parto e hoje sabe reconhecer o que é um atendimento humanizado. Na primeira gestação, apesar de ter buscado um profissional que parecia estar em sintonia com a vontade da família em relação a ter um parto normal, ela sentiu-se pressionada a realizar uma cesárea com 38 semanas e quatro dias de gestação.
"Comecei a sentir contrações e, apesar do meu pré-natal ter sido absolutamente normal, acabei com indicação de uma cesárea que hoje considero precipitada, por suspeita de pré-eclampsia", afirma, lembrando que era dia 29 de dezembro. Ela não pôde entrar andando no hospital e, nervosa, começou a sentir vontade de vomitar, mas foi impedida de ir ao banheiro. "Minha pressão subiu por nervosismo diante da situação", acredita.
Na sala de cirurgia, sentiu-se ignorada pela equipe, visto que o anestesista conversava com os outros membros sobre a programação do feriado de Ano Novo. "Tiraram meu filho com um tranco que senti, apesar da anestesia. Fiquei com os braços amarrados enquanto meu filho nascia", lamenta.
O marido não pôde acompanhar o parto e, em seguida, ao invés de estar com o filho já na primeira hora após o nascimento, ela ficou sozinha por duas horas na sala de recuperação. "Não sentia as pernas e ouvia meu filho chorar", conta.
Por tudo isso, quando se descobriu grávida de Iara, decidiu reescrever a história. "Encontrei profissionais maravilhosos que aceitaram todas as minhas decisões e tive minha filha em casa, sem intervenções desnecessárias. Fiz exercícios, dei risada e comi, enquanto a enfermeira apenas monitorava a descida do bebê. Não teve toque, não teve laceração e nem pontos. Meu filho acompanhou tudo", emociona-se ela, que reconhece a naturalização da violência quando conta a história do primeiro parto e não percebe nos interlocutores o reconhecimento de que foi violentada. "Para um bom parto, é preciso cuidado, respeito e tempo", encerra.
Juliana (nome fictício), ainda não teve a oportunidade de reescrever a própria história. Mãe de uma menina de 3 anos, ela passou por três maternidades, recebeu negativa de atendimento em duas delas e só conseguiu realizar o parto quando foi atendida no Hospital Universitário (HU) de Londrina. Ela conta que, ao reconhecer os primeiros sintomas de trabalho de parto, procurou a maternidade da cidade onde mora na região de Londrina. "Me mandaram voltar para casa porque o bebê só nasceria à noite. Quando voltei para o hospital, porém, fui informada que não teria plantão noturno e que eu teria que procurar outro local", conta.
Em Londrina, ela procurou uma instituição sentindo muita dor, sem qualquer encaminhamento por escrito. Foi atendida por um médico e, quando relatou que não tinha o documento do outro hospital, que foi apenas orientada a procurar o local, começou a ser ofendida. "O médico me perguntou se eu iria para o inferno, caso tivessem me mandado", relata. O exame de toque foi dolorido e, como já tinha passado por outros no mesmo dia, resultou em sangramento. "Aí me disseram que já tinha passado da hora do nascimento, que não tinham anestesia para fazer a cesárea e que era melhor procurar outro hospital", conta.
Foi somente no HU que ela conseguiu atendimento "decente". "Fizeram a cesárea em 15 minutos, fui muito bem atendida pela equipe. Achei que tinha perdido minha filha, mas deu tudo certo", emociona-se ela, que até hoje não superou o trauma e não sabe quando terá coragem de ter outro filho.
A mãe conta que só não processou os dois hospitais porque na época estava desempregada e não tinha dinheiro para contratar um advogado. "Não tive meus direitos básicos respeitados", lamenta.

Doulas

Casos como os relatados pelas duas mulheres fazem parte da rotina do grupo de doulas Nascer Consciente, que atua voluntariamente com pacientes do SUS e também faz atendimentos particulares em Londrina. "Somos procuradas por mulheres que despertaram para o fato de que o parto não é simplesmente um ato cirúrgico", explica Rosana Moraes Erthal, uma das integrantes do grupo. Elas também realizam palestras e rodas de conversas relacionadas a tudo que envolve o nascimento, para que as mulheres sintam-se seguras em relação ao parto.
Entre as mães que atendem, os relatos da chamada violência obstétrica são frequentes. "Fazem pressão psicológica para que aceitem a cesárea, humilham as gestantes e muitas outras situações. Defendemos que as equipes médicas não podem emitir opiniões pessoais", diz.
Serviço: para informações sobre as atividades do grupo Nascer Consciente acesse www.nascerconsciente.com.br

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