Vida mais cara - Carestia, um mal do cotidiano
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sábado, 17 de maio de 2014
Carolina Avansini<br>Reportagem Local 
A inflação acumulada nos últimos 12 meses, de 6,28% - conforme o índice de abril divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)-, está dentro da meta estabelecida pelo governo para o ano de 2014. Para quem vai ao supermercado rotineiramente, faz refeições fora de casa, paga mensalidades escolares e utiliza serviços médicos, entretanto, a alta nos preços praticados por comerciantes e prestadores de serviço parece não "combinar" com os dados dos institutos de pesquisa. A sensação de carestia tem explicação nos próprios índices. Itens que fazem parte do dia a dia dos brasileiros acumulam alta superior à média do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), utilizado para determinar a inflação.
É o caso dos alimentos (7,83%), habitação (7,62%), saúde e cuidados pessoais (6,62%) e educação (8,65%). A análise do custo de vida elaborado pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) reforça que a sensação de carestia tem motivação real. Pelo indicador, de março de 2013 a março de 2014 os produtos in natura subiram 9,92%, alimentação fora de casa aumentou 10,27%, cursos formais estão 9,75% mais caros e assistência médica aumentou 15,03%.
A cesta básica, por sua vez, subiu 11,8% em abril, em Curitiba. "É um absurdo, considerando que teoricamente temos uma inflação de 6% ao ano. Não é apenas uma sensação de que está mais caro, a alta de preços atingiu produtos de uso contínuo", critica o consultor Milton Jaworski. Segundo ele, o consumidor concentra a atenção nos itens do dia a dia, o que causa o "susto" cada vez que o caixa do supermercado anuncia a conta.
Para o administrador de empresas César Augusto Fernandes, professor da ISAE/FGV e consultor na DFP Treinamentos, o custo de vida tende a aumentar ainda mais, com prováveis elevações no preço da energia elétrica e dos combustíveis. "O governo vai tentar segurar até a época das eleições, mas não sabemos se será possível", afirma.
O consultor ressalta que a alta dos produtos básicos do dia a dia não é a única responsável pela sensação de que "está faltando salário para terminar o mês". "Muitas famílias compraram imóveis, ou um carro novo no ano passado, e começaram 2014 com a renda comprometida", explicou. Somam-se a isso fatores sazonais que levaram ao aumento de preço dos alimentos e instalou-se a sensação de carestia. O resultado, segundo ele, é a retração no consumo, que já pode ser observado nos resultados das vendas de Páscoa com o pior desempenho dos últimos cinco anos - e Dia das Mães, com crescimento pouco expressivo. "Além disso, com os juros mais altos, existe tendência de inadimplência", esclareceu.
O consultor Milton Jaworski ressalta que esta conjuntura pode gerar mudanças no comportamento dos consumidores. "Um dos princípios básicos da macroeconomia é a substituição. Quando o poder aquisitivo da população melhorou, muita gente trocou a TV de 14 polegadas por um aparelho de 42 polegadas. Quando as pessoas começam a perder poder aquisitivo por causa da inflação, a tendência é inversa, de trocar um produto caro pelo mais barato", explica.
Como alimentos são prioridade na cadeia de consumo, continuarão a ser adquiridos. "Muita gente pode deixar de comprar outros produtos, como carro, móveis e eletrodomésticos", avalia.
Fator psicológico
Os especialistas lembram que a previsão é que o Produto Interno Bruto (PIB) cresça apenas 2,5% este ano, conforme estimativa oficial. Diante de resultados inexpressivos no setor de produção, a tendência é que haja menor geração de emprego. "As pessoas passam a ter medo de ficar desempregadas e deixam de comprometer a renda com compras parceladas e financiamentos. O fator psicológico também influencia a economia", diz, ressaltando que nos momentos em que o consumidor tem certeza sobre a economia, a tendência é comprar mais. "Com os sinais fortes de desaceleração que temos observado, as pessoas não vão se comprometer", acredita.
Jaworski alerta que o processo inflacionário é uma "roda viva" alimentada pela remarcação de preços, que gera reivindicação por aumentos de salários e, consequentemente, novas remarcações. "O temor acaba contaminando todo mundo", diz ele, que ainda não vê sinais de que este processo esteja acontecendo no Brasil.
À população, o professor César Fernandes orienta que não existe mágica para enfrentar a retração na economia. "Os brasileiros precisam ter a cultura de guardar na época das vacas gordas para enfrentar os períodos de desaquecimento", ensina. Pequenas ações no dia a dia, como fazer as refeições em casa e ter mais disciplina com os gastos pessoais, ajudam a economizar e fazer sobrar dinheiro mesmo quando os preços estão altos. "Quem economizou agora vai ter boas oportunidades de negócio, afinal, o comércio precisa vender", acredita.
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