Velhinhos dão as cartas em Kaloré
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domingo, 18 de janeiro de 2015
Diego Prazeres<br>Reportagem Local 
Londrina - Em Kaloré, cidade de pouco mais de 4 mil habitantes localizada no Vale do Ivaí, próxima a Apucarana (norte), os idosos dão as cartas. É fácil encontrá-los na praça central, onde passam o dia jogando baralho, bocha ou simplesmente conversa fora. O município, de nome indígena de origem kaingang que significa "terra fofa" ou "fértil", tem o maior percentual de pessoas com mais de 60 anos em sua população entre todas as 399 cidades do Paraná. Segundo dados de 2012 da Secretaria Estadual de Saúde (Sesa), são 896 idosos, o que representa 20% dos moradores kaloreenses.
João Pereira de Lima, 78 anos, diz que não troca Kaloré por nada. "Aqui é bom demais, como se estivesse no céu. Encontro as mesmas pessoas todo dia, conheço todo mundo", afirma, enquanto espera sua vez de entrar no jogo da caxeta com aposta a cinquenta centavos. Na mesa, instalada na mesma praça onde há quase 25 anos foi inaugurada a quadra de bocha, o caçula dos quatro jogadores tem 61 anos. Como ainda era por volta de 10 horas, a quadra estava vazia. "O fervo é à tarde", diz um dos jogadores. Além da bocha, os vovôs jogam malha na estrutura anexa. João já trabalhou como zelador da quadra. Solteiro, sem filhos, ele mora com a irmã e uma sobrinha.
Só que a fama de cidade dos velhinhos não é assim tão boa para quem lida com a saúde em Kaloré. O cirurgião e clínico geral Tokio Okagawa, ele próprio um senhor de 78 anos, é um dos quatro médicos do Hospital Municipal São Lucas. Residente da vizinha Borrazópolis, há 20 anos ele dá expediente diário no hospital, o único de Kaloré. Quando a reportagem comenta sobre o que pensa do alto percentual de idosos no município, Okagawa responde de pronto: "Infelizmente". E explica por quê. "Falta estrutura social para atender todo mundo, os velhinhos que chegam até aqui vêm de tudo quanto é canto, até de Apucarana, Londrina", afirma, com espírito esportivo de guri.
Geriatra, a cidade não tem. "Não tem nenhum, quem quebra o galho somos nós", comenta. "Apucarana mesmo só tem um", observa. Para o médico, a alta taxa de idosos na população do município se deve ao fato de muitos ex-moradores retornarem à cidade quando se aposentam, enquanto os mais jovens vão buscar estudo e trabalho nos maiores centros.
O hospital já funciona como maternidade e presta atendimento emergencial graças a equipamentos doados pelo consulado do Japão. A instituição aguarda agora a assinatura de convênios e o prometido repasse de verbas do governo estadual para realizar atendimentos de média complexidade. Lá, os velhinhos recorrem a exames variados, desde controle de diabetes a reidratação. Os casos mais complexos são encaminhados a Apucarana, já que o hospital não dispõe de UTI. Em média, são realizadas cerca de 60 consultas diárias, de todas as faixas etárias, no São Lucas.
Tokio Okagawa diz que sua maior batalha é travada com o Asilo São Vicente de Paulo, que recebe pacientes de várias cidades da região. "É o único asilo da cidade, mas não tem estrutura. Há poucos funcionários, e os que têm só ficam até as 18 horas. À noite não tem ninguém para dar a alimentação, só o vigia. O ideal é que tivessem duas assistentes 24 horas porque os idosos precisam de cuidados para se alimentar, se trocar, se hidratar", critica.
O Asilo São Vicente de Paulo atende atualmente 47 idosos, mas apenas 15 são moradores de Kaloré. A coordenadora da instituição admitiu que a carência é maior na área da saúde, já que há apenas uma nutricionista e uma técnica em enfermagem no quadro efetivo. Um médico psiquiatra presta consulta semanal por uma hora.
O asilo se mantém com verba da Prefeitura, por meio do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, e donativos de empresas cooperadas. São 17 funcionários, incluindo cuidadores, cozinheiras e servidoras de limpeza, que trabalham até as 18 horas. A coordenação afirma que depois desse horário um vigia faz a guarda dos idosos, inclusive servindo as refeições noturnas que as cozinheiras deixam preparado. No total, são servidas seis refeições diárias.
Carpinteiro, pedreiro, roçador, Antonio Justino da Costa, 64 anos, mora no asilo com a segunda mulher. Dos quatro filhos, três residem em Kaloré. O aposentado conta que já morou com uma filha e o genro em São José dos Pinhais (Região Metropolitana de Curitiba), mas "não deu muito certo". As visitas são esporádicas. "Tá cada filho num canto, com sua própria família, eu também me arranjei, então vou tocando a vida."


