Velhice além da ótica biológica
Somando-se ao forte apelo da indústria da beleza, que impõe a ditadura da jovialidade, ainda há o preconceito da sociedade, que coloca em xeque a capacidade produtiva das pessoas que chegaram à terceira idade. Por isso, esta fase deve ser vista muito além de uma análise exclusiva sob a ótica biológica, pois a velhice envolve questões sociais que estão sendo relegadas, de acordo com Suzana Carielo da Fonseca, coordenadora do Núcleo de Estudo e Pesquisa do Envelhecimento (Nepe), vinculado ao Programa de Estudos da Pós-Graduação em Gerontologia da PUC-SP.
''Não estamos nos atentando ao verdadeiro impacto do envelhecimento na sociedade e se o Estado está pronto para atender a esta demanda crescente'', resume Suzana, referindo-se aos novos formatos das famílias e relações humanas, lazer e educação pertinentes à idade, o futuro da previdência social e políticas públicas ineficazes. Questões que ela classifica como urgentes, porque o velho de hoje não é mais frágil e ainda tem o que contribuir.
''Isso só vai começar a ocorrer a partir de um reforma de pensamento e comportamento de todos. Caso contrário, vamos continuar a nos defrontar com a rejeição ou negação da velhice. O aumento do mercado voltado à juventude é o reflexo dessa postura.''
Mas, diferentemente de outros países em que o processo de envelhecimento demorou mais, no Brasil, foi muito rápido, conforme Isabella Bastos de Quadro, do Observatório da Longevidade. ''Não tivemos o tempo da prevenção implantada de forma gradativa para a adaptação. Por isso, o choque é ainda maior'', diz. Os problemas, portanto, decorrentes da falta de estrutura como previdência social, políticas públicas e projetos de acessibilidade e direitos ficam mais agravados.
Ao mesmo tempo, a melhoria da qualidade de vida mudou significativamente o papel do idoso na sociedade. ''Muitos ainda são arrimo de família e desfrutam de saúde para viver muitos anos. E, quando se aposentam, não deixam mais de ser úteis, ainda possuem vitalidade para exercer muitas atividades. Esta é a hora de voltar o olhar à ressignificação dessa velhice que se alongou'', complementa Isabella. Neste contexto, ela também ressalta as novas relações humanas. ''O convívio de várias gerações tem sido um desafio.'' (M.T.)





