Uso e degradação ameaçam aquifero
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sábado, 08 de setembro de 2001
Emerson Dias 
Representantes de 45 países direcionaram suas atenções para um reservatório subterrâneo de 1,2 milhões de quilômetros quadrados, que abrange todos os países integrantes do Mercosul. Durante um congresso internacional sobre recursos hídricos realizado em Foz, as possíveis utilizações do Aquífero Guarani, assim como os perigos que cercam o gigantesco manancial, foram um dos temas mais discutidos entre os 1.100 participantes.
Desde as pesquisas iniciadas nos anos 80, realizadas por especialistas de universidades brasileiras, argentinas, uruguaias e paraguaias, nunca houve uma discussão tão séria sobre o destino incerto da reserva, cuja capacidade estimada é de 45 trilhões de metros cúbicos (ou 45 trilhões de toneladas de água), volume suficiente para abastecer todo a população brasileira durante 40 anos seguidos.
Além de pesquisadores e representantes de Organizações Não-Governamentais (ONGs), autoridades ligadas à Organização dos Estados Americanos (OEA), Rede Interamericana de Organizações de Bacias (RIOB), Ministério do Meio Ambiente e até mesmo o Banco Mundial (BIRD) participaram das discussões sobre o aquífero e as grandes bacias mundiais que influenciam a economias de vários países (como, por exemplo, o Canal do Panamá).
Durante o 4º Diálogo Interamericano de Gerenciamento de Águas, realizado em Foz do Iguaçu na última semana, foi definido um financiamento de US$ 26 milhões, destinados exclusivamente a pesquisas. Metade do dinheiro (US$ 13 milhões) será repassada pelo BIRD, enquanto o restante será ''rateado'' entre os países do Mercosul.
Os estudiosos consideraram válido o investimento, mas criticaram o ''rápido interesse'' dos organismos internacionais nos últimos meses. Para o coordenador do Laboratório de Pesquisas Hidrogeológicas (LPH) da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Ernani da Rosa Filho, é preciso desmistificar a imagem criada pela mídia e destacou que a preservação ambiental do reservatório subterrâneo precisa ser ainda mais intensa.
''Estamos falando de um reservatório criado durante milhões de anos. Tanto a poluição quanto o uso irracional da água do subsolo pode significar o fim de um dos maiores recursos naturais existentes no planeta'', comentou Ernani Filho, lembrando ainda que a perfuração de poços devem ser autorizadas somente depois de avaliação por técnicas de sensoriamento.
Em cidades como Cianorte e Marechal Cândido Rondon, a água retirada do Guarani era imprópria para o consumo humano (devido ao alto índice de salinização) e também registrou uma vazão de apenas 5 mil litros/hora. Já o poço perfurado em Ibiporã, depois estudos geológicos realizados no solo, o resultado foi suspreendente: 790 mil litros/hora de água potável jorraram sem necessidade de bombeamento. ''Existem barreiras impostas pela natureza que precisamos respeitar. Mas podemos garantir água a uma população supeior a 100 mil habitantes com apenas um poço, economizando em tubos e canalizações'', disse o coordenador do LPH.
O pesquisador e parceiro de Ernani nos estudos sobre o aquífero, o uruguaio Jorge MontaÀo Xavier, também defende o uso coerente dos recursos. ''O mal uso do reservatório em um país pode significar contaminação em outro. Temos que trabalhar em conjunto e conseguir reunir o máximo de informações possível'', alertou o professor da Universidade de Montevideu.
Montano fez um comparativo entre as cidades do Uruguai que utilizam águas do Guarani (seis na região norte) e as do restante do país. Nas primeiras, o turismo com as termas oriundas do aquífero mantém o índice de desemprego em 5%, enquanto a média nacional é de 15%. ''Esta é a primeira vez que o interesse entre governos e instituições universitárias é mútuo. Isso pode beneficiar a população dos países conscientes'', analisou Montano.
Para o coordenador nacional do Projeto Aquífero Guarani e representante do Ministério do Meio Ambiente, Luiz Amore, todos os passos estão sendo seguidos pelo governo federal. ''Temos 177 instituições envolvidas nestas pesquisas somente no Brasil. Temos que cuidar deste bem precioso desde já para garantir frutos no futuro'', explicou Amore. Os recursos conseguidos no Banco Mundial serão utilizados no projeto durante os próximos cinco anos.


