Há 30 anos, a supervisora administrativa aposentada Claudionora Justino Ferreira não sabe o que é dormir sem ingerir pílulas para induzir o sono. Ela conta que durante a gravidez de seu segundo filho começaram os problemas de hipertensão que, depois de causar um parto prematuro, nunca mais a abandonaram. Na mesma época começaram também as dificuldades para dormir, seguidas de quadros de depressão. ''Era uma época de muitas responsabilidades e dificuldades, inclusive financeiras, com dois filhos para criar, uma sobrecarga muito grande. A sensação, quando eu acordava, é que eu não tinha descansado. Eu fazia contas e acertos a noite inteira, reproduzindo as atividades do meu trabalho.''
Hoje, aos 59 anos, Claudia (como é conhecida) se confessa completamente dependente dos medicamentos. ''Não me vejo mais vivendo sem eles. Acho até que já desenvolvi uma dependência psicológica.'' Mesmo assim, ela nunca tentou parar com os psicofármacos, que também incluem ansiolítico de tempos em tempos. ''Agora consegui diminuir a dose da fluoxetina'', comemora. Claudia, que trabalhou em hospital a vida inteira, diz que seria ''uma bênção'' viver sem depender de remédios, mas não se sente capaz.
Depois de tantos anos, ela conhece como ninguém os efeitos de cada droga, e acha que nunca houve uma época em que as pessoas dependessem tanto de antidepressivos. ''A gente vê até adolescentes tomando. Parece que o mundo está agitado demais, muitos não conseguem acompanhar e entram em depressão. Antigamente não se falava tanto nisso, e os casos que havia não eram tratados precocemente, como acontece hoje em dia. Isso é importante para evitar problemas maiores'', opina.
Há, porém, quem procure levar uma vida livre de remédios. É o caso da atriz Carmem Mattos, de 80 anos. Viúva há 30 anos, mãe de quatro filhos e avó de sete netos, ela só começou a ingerir medicamentos regularmente ao completar 72 anos, por causa da diabetes. ''Até então, nunca tomava remédio. Quase não fico doente, e só fiquei em hospital quando meus filhos nasceram'', conta, com uma disposição incomum para a idade.
Para Carmem, que descobriu e se apaixonou pelo teatro há 12 anos, a receita da saúde está no otimismo, na fé e, claro, nos cuidados consigo mesma. ''A gente tem que ter sempre pensamentos positivos na cabeça, não pode ficar o tempo todo se queixando da vida. Tem gente que põe na cabeça que está doente e acaba ficando mesmo. Também é muito importante acreditar em Deus, procurar ter uma alimentação saudável e dormir bem'', ensina.
Integrante da Companhia de Theatro Casa das Fases, premiado grupo que tem o elenco formado em sua maioria por mulheres de mais de 60 anos, Carmem já se apresentou em diversos países europeus, e revela que esta sim é uma experiência revigorante. ''Viajar é melhor que ganhar na Mega Sena, porque o conhecimento que adquirimos e as sensações que vivemos, ninguém nos tira'', entusiasma-se.

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