A vida estressante dos grandes centros urbanos, as pressões de um mercado de trabalho cada vez mais concorrido, a superficialidade das relações e a busca por soluções imediatas para os problemas são ingredientes de uma perigosa receita. O resultado, em muitos casos, são altos níveis de ansiedade e angústia, que exigem disposição e trabalho para serem resolvidos. Quando esta disposição não existe, ou quando não há tempo para tratar o problema na origem, os mais variados artifícios de ''alívio'' são adotados, entre eles o uso de medicamentos.
Segundo dados divulgados no mais recente Boletim de Farmacoepidemiologia do Sistema Nacional de Gerenciamento de Produtos Controlados (SNGPC), da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), em 2010 foram consumidas mais de 25,6 milhões de caixas de psicotrópicos formulados com os cinco princípios ativos de maior consumo do País atualmente (clonazepam, bromazepam, alprazolam, fenobarbital e amitriptilina). Só de formulações industrializadas com clonazepam, entre eles o Diazepam, foram quase 10,6 milhões de unidades físicas dispensadas (UFD). Atualmente, praticamente todas as farmácias e drogarias do País estão credenciadas no SNGPC.
O Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crimes (UNODC) divulgou no ano passado relatório sobre o consumo de drogas no mundo, no qual era apontado o uso abusivo de medicamentos no Brasil, ao mesmo tempo em que o consumo de drogas ilegais se mostrava estável. De acordo com os dados, ''uma alta prevalência de uso não médico de opióides (analgésicos) de prescrição foi relatado pela Costa Rica, Brasil e Chile''.
Nomes complicados de psicofármacos (como antidepressivos, tranquilizantes e estabilizadores do humor) fazem parte do vocabulário de uma grande parcela da população, que os usa com a mesma naturalidade com que toma analgésicos ao menor sinal de dor de cabeça ou recorre a hepatoprotetores antes mesmo de sentar à mesa para devorar uma suculenta feijoada. Abusar de remédios - entre eles aqueles que afetam o sistema nervoso central - é a saída aparentemente menos complicada para enfrentar os desafios do dia a dia. O que poucos fazem é pensar nos malefícios que este hábito pode causar ao organismo, principalmente a longo prazo.
''Vivemos em uma sociedade absolutamente consumista e que busca soluções rápidas. Em vez de procurarmos acabar com a fonte do estresse, de nos fortalecer, preferimos tomar um comprimido que traga alívio imediato. O problema é que ficamos reféns deste tipo de solução, torna-se um círculo vicioso. A linha que separa este caminho e a dependência é muito tênue'', alerta o psicólogo, psicoterapeuta e professor do curso de Psicologia da PUC/São Paulo, Antonio Carlos Amador Pereira.
O psicoterapeuta lembra que a vida moderna é cheia de fatores estressores, e que o ser humano não suporta isso de forma tão intensa e constante. ''Como as pessoas trabalham sob muita pressão, acabam buscando formas de mitigar este estresse crônico. O álcool é o meio mais usado para isso, principalmente entre os jovens (muitos bebem diariamente). Algo parecido acontece com os ansiolíticos e outros medicamentos.'' Pereira ressalta que mesmo aqueles de venda não controlada podem causar efeitos perigosos quando usados de maneira incorreta.

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