Usinas podem acabar com peixes nobres
PUBLICAÇÃO
sábado, 26 de maio de 2001
Vânia Moreira Enviada a Guaíra 
A quantidade de peixes do Rio Paraná diminuiu drasticamente nos últimos anos e várias espécies já estão ameaçadas de extinção. O desastre ecológico é consequência da construção de usinas hidrelétricas ao longo do rio e da falta de manejo adequado dos reservatórios. O problema piorou nos últimos três anos por causa da escassez de chuvas e o rebaixamento do nível do rio.
Sem as cheias de verão, os peixes não conseguem se reproduzir. As espécies nobres são as mais prejudicadas, pois dependem da inundação de várzeas e lagoas para procriar. Jaus, pintados, dourados e piaparas são cada vez mais raros e podem desaparecer do rio se a situação persistir.
O Núcleo de Pesquisas em Liminologia, Itciologia e Aquicultura (Nupélia) da Universidade Estadual de Maringá (UEM) estuda o ciclo de vida do Paranazão desde 1981, quando foi construída a usina de Itaipu. Em 1987, começou a fazer também pesquisas relacionadas à pesca no lago.
O coordenador científico do Núpelia, Ângelo Antônio Agostinho, alerta que boa parte da fauna do rio vai desaparecer se as usinas não monitorarem seus reservatórios de forma a garantir um regime de cheias no último trecho livre do Rio Paraná em território brasileiro, os 240 quilômetros entre Porto Primavera, divisa de São Paulo com Mato Grosso do Sul, e Guaíra, no extremo-oeste do Paraná.
Segundo Agostinho, nos últimos três anos praticamente não houve reprodução. O ano passado foi o mais crítico porque a Hidrelétrica de Primavera fechou as comportas para encher o reservatório no início da piracema. Itaipu também teve que baixar o nível do lago para produzir mais energia. O nível do lago ficou cerca de cinco metros abaixo do normal a ponto de surgirem em Guaíra parte das rochas de Sete Quedas, submersas desde 1983.
Sem inundações, os peixes não tiveram acesso aos ninhos onde procriam, as várzeas, alagados e lagoas dentro das ilhas. Este ano vai se ainda pior, alerta o pesquisador. Itaipu planeja baixar o nível do lago em 10 metros.
A Colônia de pescadores Z-13, de Guaíra, que já chegou a ter quase 2 mil filiados, reúne hoje pouco mais de 300. Os que permaneceram reclamam que não conseguem mais sobreviver da pesca. Pescador há 33 anos, João Cirineu Machado, 77 anos, encostou o barco este mês e está indo pescar com amigos. Meu barco está destruído e não posso reformar, muito menos comprar outro, lamenta.
Machado está aposentado, mas ainda pesca para reforçar a renda. Ele afirma que há 20 anos pescava de 300 a 400 quilos por semana, só peixes grandes, nobres, os mais valorizados no mercado. Hoje, pega entre 30 a 40 quilos de armado, curimba e cascudo, de menor valor comercial. Quando a gente pega um pintado, mesmo pequeno, comemora porque é cada vez mais raro, diz.
Os pescadores também se revoltam com o fato de o governo proibir a pesca e ao mesmo tempo permitir que as usinas rebaixem o nível dos lagos durante a piracema. De que adianta impor este sacrifício aos pescadores, se as usinas vão acabar com os peixes?, questiona o presidente da colônia, José Cirineu Machado.
O pesquisador do Nupélia concorda com os pescadores. É um contrasenso, mas diante da escassez de chuvas e da crise de energia elétrica, é quase impossível para as usinas cumprirem medidas de proteção ao meio ambiente. Mesmo assim, ambientalistas e promotores de Justiça têm cobrado a adoção de um esquema de monitoramento dos reservatórios de forma a reduzir o impacto ambiental. Segundo Agostinho, existem 130 usinas na Bacia do Rio Paraná.


