Curitiba - Relíquia mais comum em museus europeus e norte-americanos, a única múmia do Egito antigo atualmente em exposição no Brasil está em Curitiba, onde desde 1995 é a principal atração do Museu Egípcio, da Ordem Rosacruz. A organização, que considera que suas tradições remontam ao Egito antigo, já mantinha o museu com réplicas de objetos do período desde 1990. A múmia “Tothmea”, como foi apelidada em referência aos faraós Tothmés, foi uma doação do Museu Egípcio Rosacruz de San Jose, nos Estados Unidos.

Múmia “Tothmea”, como foi apelidada em referência aos faraós Tothmés, foi uma doação do Museu Egípcio Rosacruz de San Jose, nos EUA
Múmia “Tothmea”, como foi apelidada em referência aos faraós Tothmés, foi uma doação do Museu Egípcio Rosacruz de San Jose, nos EUA | Foto: Rafael Costa

Após o incêndio de setembro de 2018 que fechou por tempo indeterminado o Museu Nacional, no Rio de Janeiro, onde estava a maior coleção egípcia da América Latina, Tothmea passou a ser a única oportunidade para ver de perto uma múmia autêntica do Egito antigo no Brasil. “Ela é pequena assim por causa da estatura dos egípcios ou encolheu por causa da mumificação?”, perguntou um visitante do Ceará, emendando uma bateria de perguntas assim que soube da presença de um arqueólogo na pequena capela criada para guardar o corpo embalsamado — construída sob inspiração das tumbas egípcias, com as paredes cobertas de pinturas e inscrições.

Capela foi criada para guardar o corpo embalsamado — construída sob inspiração das tumbas egípcias
Capela foi criada para guardar o corpo embalsamado — construída sob inspiração das tumbas egípcias | Foto: Marco Antonio A. Ferreira/Divulgação

Moacir Elias Santos, responsável pelo Projeto Tothmea, recebia a FOLHA junto com Vivian Tedardi, historiadora e supervisora cultural do museu. Era início da tarde de uma sexta-feira chuvosa, e apenas um par ou outro de visitantes circulava. Aos finais de semana e feriados, no entanto, até 700 pessoas procuram o local — mais conhecido como o “museu da múmia”, conforme conta Tedardi.

De onde veio, quem foi e de que morreu foram algumas das perguntas presenciadas pela reportagem e fazem parte do roteiro de questões que os responsáveis por Tothmea ouvem diariamente. “O Egito desperta fascinação nas pessoas. Elas se maravilham com o que veem”, conta a supervisora cultural.

Tothmea tem cerca em torno de 2,7 mil anos. O corpo foi levado de Luxor, no Egito, no fim do século 19, junto com outra múmia dada de presente a um diplomata norte-americano. Registros da época dizem que inscrições em seu ataúde levam a supor que se tratava de uma cantora ou musicista, e não alguém da nobreza. Conforme explica Santos, a mulher foi embalsamada em um período em que a mumificação era aplicada em camadas mais amplas da sociedade.

Mais do que isso, é difícil saber, já que Tothmea, assim como inúmeros outros corpos mumificados e artefatos egípcios, foi retirada de seu local de origem em uma época em que as múmias eram quase uma commodity no Egito. O comércio era feito sem maiores preocupações, e às vezes tirava-se a múmia de um caixão para preencher outro. “Foi a fase que se conhece como ‘antiquarismo’ na arqueologia, em que era muito comum cônsules e turistas da Inglaterra, França e vários outros países adquirirem antiguidades no Egito”, explica Santos. “Diziam que ninguém acreditaria que você esteve no Egito se não voltasse de lá com uma múmia e um crocodilo debaixo do braço”, conta.

Apesar das poucas pistas sobre a vida de Tothmea, sua importância está justamente no fato de o patrimônio do Egito ser tão raro no Brasil, avalia o arqueólogo. “Recebemos muitas crianças de escolas públicas que jamais teriam condições de viajar para o Egito ou outro país que tenha essas antiguidades. Então o museu cumpre um papel social e de difusão cultural importantíssimo”, diz. O local recebe regularmente visitas de escolas de Curitiba, do interior do Paraná e de Santa Catarina.

PRESERVAÇÃO

O Museu Egípcio fica dentro de uma das instalações da Ordem Rosacruz em Curitiba — um conjunto de prédios próximo ao parque do Bacacheri que chama a atenção pela arquitetura inspirada no Egito antigo, com colunas e decoração inspirada na arte egípcia. O museu guarda réplicas de itens como a Pedra de Roseta e estátuas — além de uma múmia andina adquirida em 2009. Um novo museu, totalmente dedicado a expor a história do faraó Tutancâmon, ainda será inaugurado em setembro.

Para o arqueólogo Moacir Elias Santos, cuidar de Tothmea é uma responsabilidade grande. “Temos de pensar que a múmia, embora pertença à Ordem Rosacruz, é também um patrimônio mundial”, diz.

Segundo a supervisora cultural do museu, Vivian Tedardi, os cuidados envolvem, principalmente, a troca da sílica usada para manter a vitrine em que o corpo está exposto com baixa umidade — a maior vilã para múmias. Também há controle da temperatura. “Dizemos que o principal trabalho foi mesmo o dos egípcios”, brinca a supervisora cultural.

Os guardiães de Tothmea passaram por uma espécie de prova em dezembro do ano passado, quando o museu recebeu a visita do arqueólogo e egiptologista Zahi Hawass — ex-ministro de Antiguidades do Egito que passou a década passada recuperando antiguidades egípcias que considerava pertencerem ao patrimônio do país africano. “Ele se interessou bastante. Quis saber a história dela, perguntou muitas coisas. E não tocou no assunto de levá-la de volta”, comemora Santos.

SERVIÇO

Museu Egípcio e Rosacruz

Rua Nicarágua, 2.641 – Curitiba. (41) 3351-3024). De terça a sexta-feira, das 8h às 12h e das 13h às 17h30. Sábados, das 10h às 17h. Domingos, das 9h às 12h. R$ 10 e R$ 5 (crianças até 12 anos, idosos, estudantes, professores, doadores de sangue e pessoas com necessidades especiais e acompanhantes)

EMPRÉSTIMO

Uma das maiores perdas no incêndio que destruiu o Museu Nacional, no Rio de Janeiro, foi justamente parte da coleção egípcia, listada entre as mais importantes do mundo e a maior da América Latina. Três múmias eram consideradas particularmente importantes e se perderam: a de Hori, um alto funcionário que viveu por volta de 1.000 a.C.; a Harsiese, que também teria um cargo importante e viveu por volta de 650 a.C.; e uma múmia feminina datada do século 1º.

A principal peça era o caixão da dama Sha-amun-em-su, que o imperador dom Pedro 2º ganhou de presente quando visitou o Egito em 1876. Após a proclamação da República, a peça passou a integrar a coleção do Museu Nacional. A maior parte do acervo já havia sido trazida por d. Pedro 1º.

Nem tudo se perdeu no incêndio. Pesquisadores já localizaram cerca de 200 itens que puderam ser resgatados. A expectativa é que mais peças sejam recuperadas, já que só uma pequena parte da sala onde estava a coleção egípcia foi escavada.

Na última semana, o diretor do Museu Nacional, Alexander Kellner, anunciou que o Louvre, na França, poderá ceder peças de sua coleção egípcia à instituição brasileira. Kellner se reuniu com o presidente do museu francês, Jean-Luc Martinez, de quem ouviu a promessa do empréstimo de longo prazo de peças.

CABEÇA

Uma cabeça de múmia egípcia recentemente identificada por uma pesquisa da PUCRS será exibida ao público entre 11 de junho e 26 de julho, no campus da universidade em Porto Alegre. A exposição contará com réplicas de objetos e símbolos usados nos rituais de mumificação egípcios provenientes do Museu Egípcio e Rosacruz, de Curitiba, e do Museu de Arqueologia Ciro Flamarion Cardoso, de Ponta Grossa

O crânio teve idade, sexo e origem identificados na pesquisa, realizada pelo Grupo de Estudo Identidade Afro-egípcias, da Escola de Humanidades da PUCRS. Segundo a instituição, a múmia foi a primeira do Brasil a ter a idade confirmada por exame de radiocarbono (carbono-14). A datação, feita em um laboratório dos Estados Unidos a partir de um dente, apontou que ela tem entre 2.495 e 2.787 anos.

De acordo com a universidade, “Iret-Neferet” — nome que significa “olho bonito” em egípcio antigo e que foi dado à múmia após a descoberta de um olho de pedra dentro do crânio — era uma mulher entre 42 e 43 anos.

A PUCRS informou que a cabeça chegou ao Rio Grande do Sul entre as décadas de 1950 e 1960. Foi presente de um egípcio a um morador de Cerro Largo, na Região das Missões. No final da década de 1970, o artefato foi doado a um museu da cidade, onde ficou até 2018.

A cabeça de Iret-Neferet estará em exposição no saguão da Biblioteca Central Irmão José Otão, no campus central da PUCRS, em Porto Alegre. Informações: (51) 3320-3500.

mockup