Uma mudança repentina, em que o dia a dia se transforma pela espera. Os pacientes que estão na fila por um transplante muitas vezes se passam por anônimos em nosso cotidiano, mas são algumas dessas histórias que podem despertar a sensibilidade de muitos sobre a doação de órgãos.

Quem acompanha de perto a rotina desses pacientes sabe que a expectativa por um telefonema é alimentada e amenizada pela esperança. Estatísticas da Central Estadual de Transplantes do Paraná apontam que atualmente 1.946 pessoas aguardam por um transplante de órgão, seja coração, córneas, fígado, pâncreas e rim, sendo este último com o maior número (1.655).

"No começo me deu um desespero. Acho que isso é comum em qualquer pessoa, principalmente entre os doentes renais porque cria-se uma expectativa muito grande para sair logo da máquina (hemodiálise). Mas é através do exemplo de muitas pessoas que a gente vai ganhando força. Tenho amigos que conseguiram um transplante e hoje têm uma vida normal." É com esse tom esperançoso que José Rodrigues da Silva, de 42 anos, descreve os 21 anos de espera por um doador compatível.

Lavrador, Silva só lamenta não poder mais trabalhar e matar a sede como antes. Em 1991, depois de uma convulsão em casa, recebeu a notícia de que poderia perder os rins. Iniciou-se ali uma rotina de exames, medicamentos e controle alimentar. "Depois de quatro meses estava me sentindo bem. Voltei a trabalhar e abandonei o tratamento. Foi então que tive uma piora e iniciei a hemodiálise. Não aguentei tanta mudança e entrei em depressão. Só aceitei minha condição quando conheci outras pessoas que lutavam contra a mesma doença. Hoje, não tenho mais ansiedade. Deixei nas mãos de Deus", desabafa.

Ao longo desses anos, surgiram quatro possíveis doadores, mas os exames de compatibilidade não deram certo. Porém, uma grande novidade animou Silva: o amor. "Ela também faz hemodiálise, mas em outro horário. Foi amor à primeira vista. Comecei a perguntar sobre ela para os enfermeiros e todo mundo acabou ajudando para que desse certo. Depois de três anos de declarações por cartas e troca de olhares, ela aceitou meu pedido de namoro e estamos juntos há oito anos", conta com entusiasmo.

A paixão de Silva é Marilva de Paula Franco, de 40 anos. Ela teve uma falência dos rins quando criança, aos 10 anos. Em menos de um ano surgiu um doador, mas seis anos após o transplante houve rejeição e ela voltou para a hemodiálise. "No ano em que o Brasil foi tetra, em 94, ligaram dizendo que havia outro doador. Foram mais três anos até meu organismo rejeitar novamente", detalha.

Marilva continua a esperar por um rim, mas dessa vez a angústia e ansiedade são preenchidas pelo companheirismo de Silva. "Procuro levar numa boa. Sou católica e me apego bastante na fé. Como fazemos as sessões juntos e temos a mesma doença, é muito fácil compreender um ao outro, além das limitações serem as mesmas", diz.

Estatísticas da Secretaria Estadual de Saúde, por meio da Central de Transplantes do Paraná, apontam que entre janeiro e julho de 2010 foram realizados 98 transplantes de coração, fígado, rins e pâncreas. Já neste ano, o número subiu para 279 no mesmo período.

Em relação à fila de espera, há variação nas estatísticas. Neste mês há registros no Paraná de 1.946 pessoas que aguardam por um transplante, sendo 37 de coração e 1.655 de rim, com prevalência do sexo masculino e faixa etária de 35 a 49 anos.

No dia 27 de setembro é comemorado o Dia Nacional de Doação de Órgãos e a Comissão de Procura de Órgãos e Tecidos (Copott) de Londrina e região já está programando uma série de atividades para a campanha que deve ocorrer durante uma semana e tem o objetivo de sensibilizar toda a sociedade.

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