Uma muleta para imprevistos
No universo de dezenas de psicotrópicos disponíveis hoje no mercado, é comum as pessoas confundirem tranquilizantes com ansiolíticos, citados como sinônimos até em alguns dicionários. O psicólogo Ari Bassi do Nascimento, doutor em Farmacologia Comportamental e coordenador do colegiado do curso de Psicologia da Universidade Estadual de Londrina (UEL), explica a diferença: ''Tranquilizante é o termo ordinário, não está necessariamente ligado a uma droga. Já os ansiolíticos são resultado da propriedade farmacológica de alguma droga, e os mais comuns são da classe dos benzodiazepínicos, que além de controlar a ansiedade produzem efeitos sedativos, hipnóticos e anticonvulsivantes. Existem mais de 3 mil tipos de benzodiazepinas, mas apenas uns 50 estão no mercado'', detalha.
O preocupante, ressalta o professor, é o uso abusivo. Segundo ele, de maneira geral estes medicamentos são prescritos para a população mais idosa para efeitos sedativos e hipnóticos. Já os mais jovens, na faixa dos 26 aos 35 anos, utilizam os benzodiazepínicos para efeitos sedativos ou simplesmente para ''ficar numa boa''. São estes, de acordo com Nascimento, que abusam da droga.
''Estudos realizados nos Estados Unidos mostram que 12,5% da população usa ansiolíticos prescritos, como o Diazepan. É muito'', avalia o professor. Ele lembra que no Brasil praticamente não há dados estatísticos sobre o assunto, mas que a situação pode ser parecida. ''A questão é saber qual quantidade consumida é prescrita e qual quantidade não é prescrita. Sabemos, por exemplo, que é fácil adquirir estes medicamentos sem receita médica atravessando a fronteira, no Paraguai.''
Nascimento esclarece que quando surgiram, os benzodiazepínicos eram comercializados livremente. Mas na década de 80, estudos mostraram que a substância vinha sendo utilizada por parte da população como um tipo de 'apólice de seguro' para possíveis imprevistos. Ou seja, era muito consumida para enfrentar aquelas situações em que não temos total controle, como uma espécie de 'muleta'. ''Em muitos casos ainda é assim, mas há um contrassenso nisso, porque estas drogas têm efeitos depressores, elas retardam a percepção, os movimentos. O sujeito passa a apresentar, por exemplo, baixa produtividade.''
A partir da década de 90, detalha o professor, começaram a aparecer compostos farmacológicos chamados antidepressivos de terceira geração, à base de fluoxetina, como o Prozac. São compostos que, por terem efeitos a longo prazo, desestimulam o consumo abusivo.
Nascimento acredita, porém, que o uso destas substâncias continua elevado porque há uma tradição de que o mal-estar de um indivíduo só pode ser curado por meio de medicamentos. ''E as pessoas que pensam assim não atentam para o fato de que medicamento é uma droga, algo que produz efeitos capazes de perturbar sistemas muito bem constituídos, que são os nossos sistemas perceptivos.'' O psicólogo esclarece que reduzir estados de ansiedade e angústia exige também o enfrentamento das circustâncias que levam a estes estados. Algo que toma tempo, dá trabalho e muitas vezes é dificultado pela pobre capacidade de resolvermos problemas a médio e longo prazos. (S.L.)





