Londrina olha para o próprio RG e sente desconforto. O londrinense típico não gosta de se dizer paranaense. O sotaque e o suposto comportamento frio dos habitantes de Curitiba são motivos de chacota na cidade, e qualquer conversa sobre a capital logo cai no clichê: "Nós não temos identificação com Curitiba, temos muito mais a ver com São Paulo".
Nos jogos do Londrina Esporte Clube no Estádio do Café, a execução do hino do Paraná é vaiada. Nunca faltam reclamações de que a cidade é desprezada pelo governo estadual – alguns mais radicais chegam a sugerir uma incorporação por São Paulo ou a criação de outro Estado.
Ironicamente, na paisagem urbana de Londrina, é possível visualizar poucas, mas imponentes figuras de resistência, que se estendem muitos metros acima do chão como se dissessem: "Sim, aqui é Paraná também!". São exemplares de araucária, cuja identificação histórica com o Paraná velho (ou seja, o do Sul e do Centro-Sul) é tão acentuada que seu outro nome é pinheiro do Paraná e que tem um desenho de seu ramo na bandeira e no brasão do Estado.
Quem passa em frente à Casa das Missionárias de Maria Xaverianas, no Jardim Dom Bosco, se depara com três araucárias perto do muro. As árvores foram plantadas por duas missionárias em 1974.
"Era bem no início. A casa ainda estava completando o jardim. As irmãs tinham três vasos, com araucárias bem pequenininhas. Elas haviam colocado o pinhão em saquinho de leite. Plantamos eu e a irmã Hildegarde, que hoje está no Pará", lembra a irmã Ana Verlingue, hoje com 65 anos. Ela conta que, no processo de escolha das árvores que seriam plantadas no jardim, outras irmãs quiseram colocar as araucárias. Uma inspiração foi a casa das xaverianas em Curitiba, localizada no bairro Vista Alegre, em uma região com muitos pinheiros do Paraná.
As araucárias da casa de Londrina não produzem pinhões, provavelmente em razão das características geográficas e climáticas da cidade (veja texto nesta página). "Disseram para a gente que elas precisam de 40 a 60 anos para ficarem completas. Mas, no sítio da minha família, em Ibiporã (Região Metropolitana), araucárias mais novas do que essas já estão produzindo. É uma região mais alta, de lá você consegue ver Londrina", afirma irmã Ana.
Ela relata ter sentimentos contraditórios sobre as três araucárias. Por vezes, irmã Ana vê as árvores e se lamenta por não serem como em Curitiba, "que tem aqueles pinheiros grandes, grossos". Em outro momentos, ela se admira com a beleza e a força das araucárias que plantou. "Vou ali, fico olhando e penso: 'Tantos anos, e os pinheiros ainda estão aqui'", conta.
Paranaense de Jaguapitã (Região Metropolitana de Londrina), irmã Ana diz sentir orgulho por ter plantado três exemplares da árvore símbolo do Estado. "A gente conhece aquela música da gralha azul, que fala no final: 'és paranaense, bichinho, és bom trabalhador'. Porque a gralha azul é quem trabalha para nascer a araucária, ela enterra o pinhão para comer depois, esquece onde enterrou e ali nasce a árvore", comenta.

ÁRVORE DE NATAL

Na Rua Goiás, em pleno Centro de Londrina, uma araucária se destaca no quintal de uma casa de madeira. A aposentada Liege Voigt, que mora ali, conta que a residência é da família desde 1948. A araucária, plantada no final dos anos 1960, foi uma atração da vizinhança durante muitos anos, mas hoje passa quase despercebida por quem passa pela região.
"Quando ela era menor, até quando tinha uns três, quatro metros, a gente fazia decoração de Natal", diz Liege. "Eu tenho uma irmã bem mais nova do que eu. Quando ela estudava no (Colégio Estadual) Hugo Simas, os colegas dela vinham até a casa para ver a araucária." Hildgart, de 90 anos, mãe de Liege, tem um carinho todo especial pela árvore. "Ela também é filha da gente", garante.
Liege também gosta de ter uma árvore simbólica no quintal de casa, mas admite que dá trabalho. "Fica caindo grimpa (ramo seco da araucária). Eu poderia colocar tudo no lixo direto, mas poderia machucar os rapazes que recolhem o lixo. Eu amarro tudo e só daí coloco na rua para recolherem", explica.

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- Exemplares locais não conseguem se reproduzir

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