Um luminoso quebrado, um jornal fechado: adeus à democracia
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sábado, 22 de março de 2014
Fábio Galão<br> Reportagem Local 
Délio César era diretor da sucursal londrinense do Última Hora, jornal de circulação nacional criado por Samuel Wainer, que havia apoiado Getúlio Vargas, era pró João Goulart e muito ligado aos sindicatos. Por isso, tinha fama de "jornal comunista". A sucursal de Londrina havia sido criada no final de 1961.
"Quando surgiu a notícia de um levante de tropas em Minas Gerais, nós falamos: 'Vamos para o boteco comemorar!'. Porque o Jango apregoava que havia um esquema militar muito forte e muito leal a ele, então nós pensamos que eles (os militares de Minas) seriam rechaçados. Mas os militares do Rio de Janeiro, a maior força do País, aderiram ao movimento, e São Paulo também. Em poucas horas, o governo do Jango estava derrubado", explica.
No dia 2, um tumulto resultou no fechamento da sucursal londrinense do Última Hora. "No prédio em que funcionava a sucursal (na Avenida Paraná, perto do Cine Teatro Ouro Verde), trabalhavam muitos corretores de café. Pouco tempo antes, nós tínhamos feito uma série de matérias dando cobertura a inquéritos policiais que apuravam irregularidades na corretagem de café. Naquele dia, estávamos trabalhando normalmente, quando um conhecido fez uma brincadeira de mau gosto e jogou uma pedrinha no jornal. Eu fui na janela e gritei: 'O que está acontecendo, rapaz?'. Os corretores de café estavam na rua e começaram a xingar a gente", afirma o jornalista.
Temendo uma confusão, César ligou para a polícia. "Não pedi para que viessem PMs, e sim agentes civis, só para acompanhar a situação. Cinco minutos depois, chegou uma caminhonete cheia de soldados. Um deles desceu gritando: 'Quem está jogando pedra no jornal?'. Aí começou a confusão. Carros pararam na frente, o trânsito ficou interrompido", relata.
Segundo César, o então vice-prefeito, Gilberto Santos, e o presidente da Câmara Municipal, Galdino Moreira Filho, foram ao local com uma bandeira do Brasil, subiram na caminhonete e pediram calma. "Mas os corretores de café e o pessoal que não gostava do Última Hora estavam agitados. Gritavam: 'Vamos quebrar, vamos quebrar!'. Por fim, chegaram a um 'acordo' e decidiram apenas quebrar o luminoso do jornal. No decorrer do dia, entrei em contato com a redação de São Paulo, e me falaram para fechar a sucursal. Fechei e nunca mais abri", recorda o jornalista. (F.G.)


