UEM tem infra-estrutura precária
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sábado, 01 de setembro de 2001
Valmir Denardin<BR>De Curitiba 
Mais de treze meses após o maior acidente ambiental do País, dois trabalhadores paranaenses ainda não tiveram uma resposta do Sistema Único de Saúde (SUS) sobre a causa da paralisia que desenvolveram depois de atuar na retirada de parte dos 4 milhões de litros de petróleo que vazaram da Refinaria Presidente Getúlio Vargas (Repar), em Araucária (Região Metropolitana de Curitiba). Em decorrência disso, também não conseguem obter nenhum benefício previdenciário. O acidente ocorreu em 16 de julho do ano passado.
José Marcondes Portella da Luz, 41 anos, está paralisado da cintura para baixo, vive preso a uma cama desde 1º de agosto do ano passado e tem duas sondas ligadas ao corpo para seu organismo expelir fezes e urina. Juraci Francisco da Silva, dez anos mais jovem, hoje só consegue se locomover, com muita dificuldade, usando muletas ou cadeira de rodas. Eles dizem que eram saudáveis quando foram selecionados para a atividade.
Os dois, que moram em Curitiba, integravam o grupo de aproximadamente 2,5 mil trabalhadores temporários que atuaram na limpeza do leito e das margens dos rios Barigui e Iguaçu, afetados pelo óleo cru (ainda não refinado). Essas pessoas foram recrutadas e pagas por empreiteiras de mão-de-obra contratadas emergencialmente pela Petrobras.
Até hoje, nenhum deles têm em mãos diagnósticos para comprovar a causa da paralisia. Médicos do Hospital Evangélico de Curitiba, que atenderam Luz durante três meses e meio, concluíram que ele é vítima de mielite transversa (inflamação na medula, que provoca a perda progressiva da força muscular), mas não apontaram a causa dessa doença.
No caso de Silva, não há qualquer conclusão. Desde 9 de agosto do ano passado, quando foi atendido pela primeira vez pelo Centro Metropolitano de Apoio à Saúde do Trabalhador (Cemast), ele fez dezenas de exames. Até agora, não há qualquer prova de que a causa do problema neuromotor que os dois apresentam possa ser a suposta contaminação pelo petróleo.
A partir de agosto do ano passado, o Sindicato dos Petroleiros (Sindipetro) encaminhou ao Cemast nove pessoas que trabalharam no recolhimento do óleo e que apresentavam fortes dores de cabeça, vômito, dores no corpo, fadiga, sangramento no nariz e manchas na pele. Luz e Silva integravam esse grupo. Os sintomas acima são associados à intoxicação por benzeno o componente mais nocivo do petróleo, altamente tóxico e cancerígeno.
Estudos da Fundacentro órgão do Ministério do Trabalho, encarregado de pesquisar melhorias para a saúde, segurança e higiene do trabalhador apontam que o benzeno pode provocar leucemia e outros tipos de câncer, baixa resistência a infecções e aplasia da medula (o organismo pára de produzir sangue). Dependendo dos níveis de exposição, o benzeno pode até provocar a morte. Nesses estudos, não há conclusão que esse componente químico possa provocar mielite transversa.
O benzeno é um produto tão perigoso que obrigou a criação de uma legislação federal para estipular regras para o seu manuseio. Entre as principais estão a proibição do contato direto do benzeno com a pele e a exigência de que o trabalhador use equipamentos de segurança: macacão de material plástico, luvas, botas e máscara.
A Repar e as empreiteiras garantem que forneceram esses itens, mas os trabalhadores negam que utilizaram máscara, o que é comprovado por fotos tiradas pela Folha nas frentes de trabalho. Os casos de Luz e Silva são os únicos conhecidos de doença grave entre os operários que atuaram na retirada do óleo.
Sem diagnóstico que comprove que a paralisia que sofrem é decorrente de um acidente de trabalho, os dois operários estão sem qualquer benefício do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Silva requereu auxílio-doença por motivo de acidente (pagamento, por tempo indeterminado, de 91% do salário de contribuição do trabalhador) no órgão, em 11 de agosto do ano passado. Ainda não obteve resposta.
Luz não pôde requerer o benefício porque não teve a carteira registrada pela empreiteira Econ, o que é obrigatório pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). Silva só teve o registro retroativo depois que a Folha publicou reportagem sobre a irregularidade, em outubro do ano passado. Advogados trabalhistas consultados pela reportagem afirmaram que a falta de laudo conclusivo não impediria, mas dificulta a concessão dos benefícios trabalhistas.


