TURISMO RELIGIOSO - Lembranças de uma romaria
PUBLICAÇÃO
sábado, 11 de maio de 2013
Olga Leiria <br> Reportagem Local 
''Combustível de fé para o ano todo'', assim Juliana Alves define sua ida para Juazeiro do Norte, Ceará, todos os anos, desde criança. Agora com 30 anos, dona de casa, casada e mãe de dois filhos, sai de Custódia, em Pernambuco, para enfrentar, com impavidez, 207 quilômetros de estrada em um caminhão pau de arara até chegar na cidade de Cícero Romão Batista, o Padre Cícero. ''Se eu não vir com eles (os filhos) pelo menos uma vez ao ano, ficam doentes'', diz Juliana, referindo-se aos seus ''meninos'' enquanto o ônibus vai rumo à Colina do Horto, local onde fica a estátua de Padre Cícero, um mito da fé brasileira.
A reportagem da FOLHA acompanhou uma romaria no local, centro de peregrinação do Nordeste, que todos os anos recebe milhares de fiéis. Foram dois dias intensos junto aos peregrinos que aparecem de todos os cantos para agradecer preces atendidas, pagar promessas e fazer pedidos por uma graça. Do alto da Colina, a visão é de encher os olhos: pode-se ver a cidade inteira e a Chapada do Araripe. Alguns preferem encarar o sol forte do sertão e subir os cinco quilômetros a pé. Outros pagam R$ 1,50 e vão com as várias conduções que saem do terminal central de Juazeiro.
A Colina do Horto é um lugar cheio de árvores. São juazeiros - ou juás - e tamborás, que ajudam a refrescar o escaldante sol do Nordeste. As missas e terços são rezados à sombra de um tamborá. É o local onde Padre Cícero ensinava lições sobre a natureza para as crianças.
O casarão, onde o religioso passava seus finais de semana, hoje é a sala dos milagres. Uma espécie de museu com ofertas pelas graças atendidas. O local abriga uma mistura de fotografias, vestidos de noiva, bonecas e pernas, braços, cabeças e seios - a maioria feita de madeira ou cera. Também se destacam camisetas de time de futebol, casa em miniatura, chaves, cartas e imagens de santos, que simbolizam a simplicidade e gratidão ao Padre Cícero pela graça atendida.
No alto da Colina
A estátua de Padre Cícero fica ali, no alto da colina, zelando pela cidade de Juazeiro do Norte. Na escultura estão amarradas milhares de fitinhas coloridas que são penteadas pelo vento e fitas grandes que dão a volta na imagem de 27 metros de altura. Além de dar três voltas em torno da bengala da estátua e fazer o pedido, os romeiros deixam seus nomes na parte mais baixa da imagem onde há uma grande mistura de nomes escritos.
É fácil identificar os romeiros, pois eles sempre usam chapéu. Fazem assim porque o ''Padim Ciço'' - como é carinhosamente chamado pelos fiéis - andava sempre com um chapéu de palha. Muitos também usam uma batina preta como a do religioso.
Na rua do Horto, na escadaria da estátua ou no caminho do Santo Sepulcro, sempre é possível avistar romeiros com os pés descalços no chão quente, de joelhos ou carregando pedras sobre suas cabeças. Francisco de Assis, de 80 anos, aposentado, nascido e criado em Juazeiro, fala que nenhuma modernidade vai mudar essa tradição. ''Isso é o calor da oração'', diz ele, que participa de todas as romarias da cidade vestido de palhaço da Folia de Reis para animar os romeiros.
Filhos, irmãos, netos, sobrinhos...
É difícil encontrar um romeiro sozinho. Estão sempre em grupo. São pais, mães, filhos, irmãos, netos, sobrinhos, tios, madrinhas, todos juntos à procura de benção para toda a família. Caminham irmandados e sentem-se conectados com o Padre Cícero, em uma ligação quase física. A maioria fica em pousadas que possuem apenas grandes espaços para colocar suas redes, deitar e descansar do dia intenso de caminhadas, missas, novenas e orações. Muitos também aproveitam a cidade e fazem compras de panelas, roupas, cobertores e calçados.
Cícero Manoel dos Santos, de 60, pedreiro, marca presença há 15 anos em Juazeiro do Norte. Morador de Curaçá (BA), enfrentou 284 quilômetros com quase toda a sua família em um caminhão pau de arara - 14 filhos, 26 netos e uma bisneta - para agradecer e pedir graças a Padre Cícero.
Gente simples de amor no coração - assim como boa parte dos romeiros de Juazeiro - no final da conversa, seu Cícero dá à reportagem da FOLHA uma foto 3x4 sua. ''É para não esquecer que você tem um amigo. Mesmo morando longe, pode contar sempre comigo'', disse ele, ganhando um abraço emocionado da repórter.
Sob a lua, gente na praça
A lua vem cedo - às 17h30 - iluminar a Chapada do Araripe. O calor intenso vai se refrescando e a praça central da cidade de Juazeiro do Norte se enchendo de gente para passear, ficar sentado no banco vendo o movimento e - o principal - petiscar. Barracas com comida típica como mungunzá (feijoada com creme de milho), tapioca com recheio de carne seca, batata frita em porções de R$ 2 e R$ 3, crepes, buchada de bode recheada compõem o cardápio dos romeiros.
As músicas se misturam na praça. Um grupo colombiano canta cumbias (música típica) e o movimento carismático da Igreja Católica agita os jovens.
Dia de despedida
Numa alvorada deslumbrante, o dia amanhece às 4h40. Para muitos, é o último dia na terra de Padre Cícero. A primeira missa é às seis da manhã na Igreja Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, onde está enterrado o corpo do religioso.
Cantos antigos são recitados como poemas. Muitas das orações são em intenção aos amigos e familiares que já morreram. Os nomes ressoam pelos alto-falantes da igreja o dia todo como se fossem mantras. Ao meio dia vem a tradicional missa da despedida. Centenas de chapéus são acenados. O padre reza e o povo canta: ''Adeus, adeus, adeus Maria. Para bem longe já vamos partir, já vamos Juazeiro deixando e a mãe de Deus vai nos abençoando.''
Após a missa, caminhões de pau de arara saem buzinando ao som de rojões e todos vão acenando, com a certeza das promessas pagas nas romarias.
À noite, o cheiro das velas queimadas toma o largo da igreja cheio de fiéis. Mais missas invadem a noite. Na feira do largo da igreja, rosários se emaranham entre imagens de Padre Cícero, São Longuinho, Frei Damião e São Francisco de Assis.


