TUDO NOVO EM 2016 - Motivos para ter esperança
PUBLICAÇÃO
domingo, 03 de janeiro de 2016
Carolina Avansini<br>Reportagem Local 
A esperança é o combustível que move muitos pacientes com câncer neste começo de 2016. Após a polêmica suspensão da distribuição da substância fosfoetanolamina sintética, que teria potencial para curar alguns tipos da doença, o Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp) anunciou recentemente que vai liderar a pesquisa clínica que pode resultar na esperada liberação do produto para uso em pacientes.
A fosfoetanolamina sintética foi desenvolvida pelo professor aposentado do Instituto de Química da Universidade de São Paulo (USP) de São Carlos, Gilberto Chierice, e tem sido utilizada por pessoas com acesso ao produto por pelo menos 25 anos. Por não haver pesquisas conclusivas sobre a eficácia e nem a liberação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para ser usada como medicamento, entretanto, em novembro do ano passado o Tribunal de Justiça de São Paulo suspendeu o fornecimento da substância distribuída pela USP para pacientes que possuíam liminares para receber o produto.
Ainda no primeiro trimestre de 2016, o Icesp deve iniciar a pesquisa que pode resultar na fabricação de um medicamento à base da "fosfo", como é chamada pelos médicos. A rapidez no processo que vai culminar do estudo é resultado da pressão dos próprios pacientes e familiares, que protestaram na Assembleia Legislativa de São Paulo e levaram o assunto a uma audiência pública no Senado.
Na reunião no Senado, médicos da rede que pesquisa sobre o possível medicamento mostraram resultados da aplicação da droga em pacientes sob seus cuidados, com a apresentação de exames de imagem e vídeos destacando evolução positiva no tratamento. Uma paciente relatou aos senadores que teve câncer de mama e nenhuma das terapias a que se submeteu foi eficaz. Com metástase óssea e já em tratamento paliativo, passou a usar a fosfoetanolamina em setembro e, desde então, já não precisa mais de cadeira de rodas e nem de bengala. Também parou de usar medicamentos para as dores, que lhe causavam efeitos adversos.
PESQUISA
A assessoria de imprensa do Icesp informou que a pesquisa vai começar já na fase 2, ou seja, a substância será testada diretamente em humanos. A princípio, dez pacientes receberão a "fosfo". Caso não apresentem efeitos colaterais, grupos de 21 pacientes para cada tipo de câncer selecionado passarão a tomar a pílula e assim sucessivamente, podendo chegar a 100 pacientes em cada grupo. Os testes serão feitos em quatro hospitais que atendem pela rede estadual paulista: A. C. Camargo, Hospital do Câncer de Jaú, Hospital do Câncer de Barretos e o Icesp. A produção da substância ficará sob responsabilidade da Fundação para o Remédio Popular (Furp).
A expectativa é que, em seis meses, haja um esboço sobre o funcionamento da droga em relação à redução do tumor e também da dor. A substância não será testada em pacientes terminais, mas naqueles que estão em algum intervalo do tratamento convencional ou que estão em fase em que não há tratamento disponível. Ainda não há informações sobre o processo de seleção, mas os testes envolverão pacientes com cânceres de cabeça e pescoço, mama, colo uterino, próstata, estômago, fígado, pulmão, pâncreas, melanoma, cólon e reto.
Em dezembro, o projeto foi encaminhado para aprovação da Anvisa e do Conselho Nacional de Saúde (Conep). Além da aprovação desses órgãos, será necessário ainda que o responsável pela substância, o professor aposentado do Instituto de Química da Universidade de São Paulo (USP) de São Carlos, Gilberto Chierice, forneça a fórmula para que as cápsulas sejam produzidas pelo laboratório da Fundação para o Remédio Popular (Furp). Se houver as liberações, a pesquisa pode começar no primeiro trimestre de 2016.
Caso a eficácia da "fosfo" seja comprovada, inclusive em comparação a outras tecnologias disponíveis, a produção do medicamento será liberada.
OUTRAS TECNOLOGIAS
O médico Gustavo Fernandes, presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC), afirmou que a comunidade médica tem expectativas de que a "fosfo" seja validada, mas reforça que os estudos clínicos são fundamentais para garantir a segurança de um possível medicamento. "Não existe mágica em relação ao câncer, é preciso concluir os estudos antes de distribuir a fosfoetalonamina sintética", diz, destacando que trata-se de uma substância barata. "Será ótimo se for uma alternativa válida de tratamento."
Enquanto a pesquisa não começa, os médicos apostam em outras tecnologias promissoras em relação ao tratamento da doença. Uma delas é a imunoterapia, que visa à melhoria do sistema imunológico dos pacientes para provocar uma reação ao câncer. Existem inclusive estudos a partir de vírus oncolíticos que são bastante promissores, destaca o médico.
O problema em relação a essas tecnologias é o alto custo que pode dificultar o acesso da população brasileira a elas. "Funcionam bem, mas não sei se o Brasil poderá pagar", lamenta ele, destacando que será importante haver negociação cuidadosa entre todos envolvidos, sejam eles representantes do Ministério da Saúde, associações de pacientes ou laboratórios.
Esperar a popularização da tecnologia e a consequente queda no custo, segundo Fernandes, não é uma opção válida. "O paciente que está doente hoje não pode esperar", avisa. (com Agência Estado e Agência Senado)
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