'Trump é imprevisível'
Apesar de não acreditar que seja fácil implementar todas as medidas prometidas pelo presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump, o cientista político Mário Sérgio Lepri, professor de Ciência Política na PUC de Londrina, afirma se preocupar com o fato do magnata ser "imprevisível". Os EUA, segundo ele, são uma democracia consolidada, onde as instituições valem mais que os mandatários. "O problema é que a sociedade americana nunca elegeu alguém com essa imprevisibilidade e o viés de autoritarismo inerente à pessoa", avalia.
O especialista lembra que, na legislação americana, existe inclusive a possibilidade do parlamento revogar leis já existentes. "As instituições controlam, mas até que ponto são capazes de evitar ideias como deportação em massa?", questiona, lembrando que no modelo americano a "canetada" do presidente não é suficiente para grandes mudanças. "Mas não sabemos como o Trump vai se comportar", reforça.
Lepri avalia que Trump teve o apoio dos americanos médios, do interior, que ainda acreditam que os imigrantes podem ser ameaçadores. "São pessoas que defendem a América para os americanos e não querem programas políticos protetivos em relação a populações mais vulneráveis, como os imigrantes", diz.
Para essa parcela, a única necessidade é ganhar dinheiro e se responsabilizar por si próprio. "Acreditam que o estado os atrapalha a conquistar o que precisam por mérito individual. Essa é a lógica dos que elegeram Trump", explica. Resta saber se o presidente vai conseguir garantir aos próprios eleitores a recuperação dos empregos, como prometeu exaustivamente.
"Como vai garantir emprego ao americano, por exemplo, que mora na falida Detroit, visto que a produção automotiva atual está no México?", pergunta, destacando que a solução não depende só do presidente, mas de uma conjuntura que envolve condições para as indústrias retornarem aos EUA e até a revisão de tratados internacionais. "Não será com deportação em massa que ele vai resolver a questão dos empregos. Só que, se não cumprir o que prometeu, corre até o risco de perder o apoio do americano médio, que está empoderado pelo discurso da América para os americanos", pondera.
Professor de Direito Internacional Público na PUC de Londrina, Rudá Baptista também acha que Trump radicalizou o discurso para ser eleito, mas não acha que será fácil cumprir as promessas. "Como defensor dos Direitos Humanos, torço inclusive para que ele não consiga concretizar o que prometeu", espera.
Ele acha difícil criar normas ou leis que impeçam a livre circulação ou que residentes nos EUA sejam expulsos. O filtro natural para selecionar entrada de estrangeiros, que é a concessão de vistos, pode ser modificado para dificultar o acesso. "Vai depender de como querem atender turismo e os vistos de trabalho", comenta, destacando que determinações muito rígidas podem até gerar problemas diplomáticos.
"O cenário internacional hoje vê a integração como solução. Os países não vivem isoladamente no plano global", afirma. Essa configuração começou após a Segunda Guerra Mundial, quando começaram a se formar os blocos nos continentes até para evitar possíveis zonas de conflito. "Quando um país adota uma ruptura em relação a isso, pode dar um tiro no próprio pé. Trump vai ter que colocar na balança a necessidade de honrar a palavra, até porque não sabemos se quem votou nele vai conseguir assimilar as consequências negativas da execução das políticas propostas", afirma. (C.A.)





