Trânsito no Paraná mata mais do que violência
Dados do seguro obrigatório apontam que, no ano passado, 2.712 pessoas morreram e mais de 14 mil ficaram inválidas em decorrência de acidentes
PUBLICAÇÃO
sábado, 01 de junho de 2019
Dados do seguro obrigatório apontam que, no ano passado, 2.712 pessoas morreram e mais de 14 mil ficaram inválidas em decorrência de acidentes
Pedro Moraes - Grupo Folha 
Uma motorista embriagada voltando de uma festa atinge uma motocicleta com dois ocupantes. O resultado do acidente é trágico e irreparável: dois mortos e os traumas de um processo judicial tanto para a causadora como para as famílias das vítimas. Esse enredo ganhou o noticiário em Londrina há pouco mais de um ano e ainda não foi solucionado pela Justiça. O sofrimento das três famílias envolvidas é imensurável, mas representa um pequeno número na imensidão de acidentes ocorridos nas vias do Paraná em 2018. O relatório da seguradora Líder, administradora do DPVAT (Seguro de Danos Pessoais Causados por Veículos Automotores de Vias Terrestres), aponta números alarmantes sobre a violência nas ruas e estradas paranaenses. Entre janeiro e dezembro passados, 2.712 pessoas morreram em decorrência de acidentes de trânsito – o número é 30% maior do que as vítimas de violência urbana. No mesmo período, a Secretaria Estadual da Segurança Pública e Administração Penitenciária registrou 2.088 vítimas de homicídio doloso, latrocínio e lesão corporal com resultado de morte. A gravidade aumenta ainda mais ao somar a essa estatística as indenizações pagas em decorrência de casos de invalidez, que somam 14.808 pessoas. “Esses números são gravíssimos. Há que se lembrar que a malha viária do Paraná é razoavelmente antiga e cheia de sinuosidades, o que favorece os acidentes”, aponta o médico David Duarte Lima, diretor do Instituto de Segurança no Trânsito.

A situação apontada pelos dados da seguradora fica mais preocupante se for levado em consideração que parte dos acidentes não são notificados à empresa responsável pelo seguro obrigatório. Por isso, o número de vítimas é ainda maior. Se comparada aos registros de anos anteriores, a situação parece até melhor. Há cinco anos, em 2014, a administradora do DPVAT registrou 3.876 mortes, pouco mais de mil a mais do que no ano passado. Os dados mostram que, nos últimos cinco anos, os índices de acidentes de trânsito no Paraná vêm diminuindo. Em 2014, foram registrados mais de 53 mil sinistros. Já no ano passado, os números eram superiores a 21 mil, uma redução de 61%. “Apesar da diminuição, a realidade mostra que é preciso intensificar o investimento em campanhas de prevenção de acidentes e uso dos equipamentos de segurança, principalmente quando olhamos o universo de ocorrências envolvendo motocicletas. Também é fundamental o reforço da fiscalização e sinalização das vias”, explica Arthur Froes, superintendente de Operações da seguradora Líder.
Segundo dados do Detran-PR, o fator humano é responsável por 90% dos acidentes, seguidos por problemas mecânicos, 6%. Já as condições das vias foram apontadas em 4% dos casos. Esses pontos devem ser levados em consideração quando se pensa em prevenção. Há três principais ações que precisam ser tomadas para melhorar a segurança nas vias: educação, engenharia e fiscalização. “Basicamente, se trata de uma rede de planejamento e inteligência. Não é possível conceber que o governo faça uma estrada e coloque uma placa escrito ‘curva perigosa’. Ela nem deveria existir”, explica Lima, que aponta que falta organização nos dados por parte dos governos para o planejamento de medidas que aumentem a segurança nas vias. “As informações precisam ser reunidas com o auxílio da tecnologia e com o georreferenciamento para ver onde está o maior número de casos e, dessa forma, combater da melhor forma possível”, aponta David Duarte Lima, que tem doutorado em segurança no trânsito pela Universidade Livre de Bruxelas, na Bélgica.
Alguns problemas das estradas no Paraná foram expostos pelo MPF-PR (Ministério Público Federal no Paraná) e PRF (Polícia Rodoviária Federal) quando denunciaram irregularidades nas concessões das rodovias no estado. Parte do descumprimento dos contratos das empresas no Paraná provocou graves prejuízos ao interesse dos usuários das rodovias. Isso porque a investigação dos órgãos comprovou que as empresas se comprometeram a duplicar 995,7 quilômetros até 2016, mas, em virtude das mudanças contratuais feitas mediante pagamento de propinas, as obras foram suprimidas e postergadas. Em 2019, da quilometragem inicial pactuada, apenas 273,5 km foram duplicados – somente 27,4% das duplicações ajustadas. A PRF apontou que, nos últimos cinco anos, houve um total de 1.714 mortes em rodovias federais do Anel de Integração, das quais 403 ocorreram em colisões frontais em trechos de pista simples e poderiam ter sido evitadas. “A construção de passarelas, adição de faixas em locais onde a velocidade é reduzida e a eliminação de retornos em nível são algumas das melhorias que podem ser elencadas para auxiliar na redução do número de acidentes e mortes. Mas a educação no trânsito ainda é a solução para se alcançar a redução desses índices”, aponta a Polícia Rodoviária Federal.
Governos apostam em educação, mas falta trabalho conjunto
A principal linha de trabalho da luta pela redução da violência nas estradas no País é através de campanhas educativas. Tanto o governo federal como os estaduais e municipais elaboram calendários para abranger as mais diversas frentes. No entanto, nada parece ser suficiente. Segundo dados da Polícia Rodoviária Federal, as principais causas de acidentes que ocasionam mortes estão relacionadas ao excesso de velocidade, ultrapassagens proibidas, embriaguez ao volante e a falta de atenção de motoristas e pedestres. Em todos os casos, o comportamento adequado por parte dos cidadãos poderia evitar muitas batidas e atropelamentos. “A PRF participa do processo de melhoria no trânsito na medida em que realiza palestras em rodovias e escolas, atingindo todas as pessoas, conscientizando do papel que cada um tem e sua parcela de responsabilidade no trânsito. Também age por meio da fiscalização de velocidade com a utilização de radares portáteis, operações em dias e locais de maior incidência de acidentes”, afirma a PRF.
A formação de novos condutores tem regulação federal e é feita em cada estado através do Detran. O conteúdo teórico e as exigências práticas são definidos pelo Denatran (Departamento Nacional de Trânsito), parte do ministério da Infraestrutura. Segundo Larson Orlando, coordenador de Habilitações do Detran-PR, a orientação dada no curso de formação nas autoescolas é suficiente para formar bons motoristas. “Como em todo o ensino, nem todo o conhecimento passado é aprendido. É impossível saber o nível da consciência que foi formada naquele indivíduo. Já para pedestres não há formação. Por isso, buscamos acompanhar os dados passados em todo o estado para promover ações específicas para evitar novos acidentes”, explica Orlando. Parte das informações que poderiam ajudar na prevenção, no entanto, não chegam ao órgão. “Falta o feedback do trabalho que fazemos. Parte dos dados vem do governo federal e demora a chegar, acabamos agindo a partir da provocação da sociedade civil. Falta um tanto de integração para montarmos um trabalho em conjunto”, critica o coordenador do Detran.
Em Londrina, a gestão do trânsito é de responsabilidade da CMTU (Companhia Municipal de Trânsito e Urbanização). Segundo dados do órgão, em 2018, foram registradas 3.471 ocorrências das ruas, que envolveram 4.049 vítimas, sendo 83 mortes. O número de autuações ultrapassou 181 mil, sendo mais de 95 mil somente por excesso de velocidade. “Um dado importantíssimo é que, em 90% dos casos, os acidentes são causados por imprudência. Vivemos numa sociedade na qual se cultua os carros, mas se valoriza muito pouco a vida. Quantas pessoas são vítimas e famílias são destruídas?”, questiona Sérgio Dalbem, diretor de trânsito da CMTU. O gestor do setor na cidade afirma que, apesar do trabalho de educação, a ação de fiscalização e multas é necessária, ainda que não seja suficiente. “Quando assumi o posto, muitas pessoas vieram cobrar o fim dos engarrafamentos, mas ninguém falou sobre os acidentes, a redução das mortes. As pessoas reclamam dos radares, mas são a forma mais justa e imparcial de controlar a velocidade. O ideal seria não precisar, mas o quanto os motoristas colaboram?”, provoca Dalbem.


