TRÂNSITO - Tragédia sobre duas rodas
PUBLICAÇÃO
domingo, 03 de novembro de 2013
Lúcio Flávio Moura<br> Reportagem Local 
É como se cada morador da Região Metropolitana de Londrina morresse ou ficasse inválido. Este é o saldo de uma das maiores tragédias vigentes no território brasileiro na atualidade: 958 mil pessoas entre 2000 e 2012 perderam a vida ou ficaram definitivamente limitadas de alguma capacidade física após sofrerem acidente de motocicleta, conforme dados da seguradora Líder Dpvat. É um dado perturbador, mas é apenas mais um numa montanha de estatísticas trágicas, que atesta as consequências sangrentas do explosivo crescimento da frota de veículos motorizados de duas rodas. O número de motos cresceu 60% em menos de cinco anos (2008-2013), enquanto o de mortos em acidentes com este tipo de veículo aumentou 58% (2006-2011). Sem um estudo oficial profundo, especialistas de várias áreas tentam dimensionar o tamanho do problema. As implicações vão muito além da dor da família e dos amigos das vítimas. Elas se estendem ao já sobrecarregado sistema público de saúde e onera os cofres da Previdência Social, concedente dos auxílios-doença e de aposentadorias precoces.
Não há nenhum estudo amplo por parte do Departamento Nacional de Trânsito (Denatran) sobre os custos com os acidentes. Dados do Sistema Único de Saúde (SUS) apontam que metade dos gastos com internações de acidentados no trânsito são consumidos com motociclistas. No Nordeste, maior mercado de motos e onde a frota cresce em ritmo ainda mais acelerado, a proporção é maior. No Piauí, por exemplo, os motociclistas eram 84% dos acidentados hospitalizados em 2011. A estimativa é que estes gastos ultrapassem R$ 100 milhões por ano em 2013.
O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), fundação pública ligada à Presidência da República, fez dois dos estudos mais abrangentes sobre o prejuízo da sociedade brasileira com os acidentes automobilísticos. O segundo, em 2006, apontou que computados somente os gastos com acidentes nas rodovias a conta ficou em R$ 22 bilhões. O valor inclui perdas com produção, associada à morte das pessoas ou interrupção de suas atividades, custos de cuidados em saúde (pré-hospitalar, hospitalar e pós-hospitalar, remoção e translado) e os prejuízos materiais, associados aos veículos danificados ou destruídos.
Quem está à frente da administração de recursos do SUS, como o secretário municipal de Saúde de Londrina, Francisco Eugênio de Souza, já chama o problema de epidemia e compara a situação com outro drama da saúde pública, a questão do crack.
"Assim como no caso das drogas pesadas, como o crack, a maior parte das vítimas são jovens. O problema afeta, portanto, o potencial da força de trabalho e a expectativa de vida da população, o que é praticamente incalculável para a sociedade", afirma Souza.
O secretário acredita que Londrina pode dar um exemplo para outros municípios com uma grande mobilização para enfrentar o problema que envolva o poder público e a sociedade civil. "Precisamos incluir esta questão na educação básica e em campanhas de conscientização voltadas aos jovens. Por outro lado, deve haver um esforço para aumentar o rigor da fiscalização, principalmente em relação à velocidade das motos. Sem dúvida é um trabalho árduo mas deve ser feito imediatamente."
Os gastos com os atendimentos aos feridos dos acidentes contribuem para que os recursos do SUS acabem destinados quase que integralmente a procedimentos de média e alta complexidade em detrimento de ações preventivas em unidades básicas e em equipes de atendimento domiciliar. Reportagem da FOLHA publicada no final de setembro revelou que apenas 12,4% dos recursos dos principais blocos de investimentos do SUS eram destinados à atenção básica.
"Os acidentes de motos resultam em procedimentos caros como a colocação de próteses, o internamento na UTI e o tratamento de reabilitação", afirma Souza. "Especialidades como traumatologia, neurologia e fisioterapia atendem muitas vítimas destes acidentes, afetando a oferta para outros tipos de pacientes."
Levantamento feito pelo Instituto de Ortopedia e Traumatologia (IOT) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, o maior complexo hospitalar da América Latina, indicou que um quinto dos acidentados com moto estavam sob efeito de drogas ou álcool.
Ao se analisar o prontuário de 326 vítimas atendidas em um intervalo de três meses, a pesquisa apontou que 92% dos envolvidos eram homens, com idade média de 29 anos e renda entre um e três salários mínimos. Em relação à escolaridade, 58% cursaram o ensino médio completo ou incompleto e quase um quarto deles (23%) não tinham habilitação. Os inexperientes até quatro anos de habilitação correspondiam a um terço do total de acidentados. A pesquisa informou ainda que 44% sofreram lesões graves e 55% eram reincidentes. Os dados foram divulgados em agosto deste ano.
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