TRÂNSITO - Sinceramente, nunca pensei em segurança
O recepcionista Wendel Maycon de Oliveira, de 25 anos, guiava uma motocicleta mesmo antes da maioridade. Por influência do irmão mais velho, Willian, ele adquiriu uma moto própria para trilhas e era sua principal diversão no final da adolescência. "Saía sempre com meus primos nos finais de semana para treinar com minha DT 180". Num domingo de manhã, quando ele tinha 20 anos, a diversão, porém, parecia que havia acabado.
Foi na cidade que Oliveira engrossou as estatísticas de tragédias pessoais ligadas aos veículos de duas rodas. Quis o destino que o motoqueiro de tantas manobras radicais na zona rural e que já pensava em participar de competições de motocross sofresse seu pior acidente na garupa de uma CG 150, bem próximo da sua casa Numa esquina do Conjunto Cafezal, na zona sul de Londrina, uma Ford Ranger invadiu uma preferencial e atingiu a moto violentamente. "Voei 22 metros, rolei no asfalto e fui parar na calçada", conta ele, que à época estava desempregado.
No "voo", Oliveira encontrou um poste. Com o choque no artefato de concreto, sua perna direita foi dilacerada num ponto 15 centímetros acima do tornozelo. "Me contaram que meu pé ficou pendurado, preso apenas pela pele. Um pedaço do osso foi parar no quintal da vizinha".
Os médicos não tiveram escolha, mesmo com a resistência da família. A perna foi amputada. "O pior momento disso tudo foi quando acordei, já no hospital. A gente fica achando que é um pesadelo, que tudo aquilo não é verdade, e descobre que realmente tudo aconteceu ao se deparar com aquilo", conta o ex-motociclista.
Depois de passar pela Unidade de Tratamento Intensivo (UTI), Oliveira ainda teve uma outra complicação. O corte da amputação infeccionou e um mês depois ele perdeu mais alguns centímetros da perna. No total, foram dois meses em um leito de hospital. Após longas sessões de fisioterapia que se estenderam por meses, Oliveira começou a superar o trauma com a colocação de uma prótese de fibra de carbono. Financeiramente, se manteve com o auxílio-doença. Também recebeu o seguro e foi indenizado em R$ 21 mil. "Na verdade, nunca havia me preocupado com isso. Nunca pensei em segurança, sinceramente", diz.
Um ano depois de todo este drama, ele não teve dúvidas. Comprou outra moto, desta vez uma Twister, e começou a trafegar pela cidade de novo. "A diferença é que minha pilotagem ficou muito mais cautelosa", afirma.
Ainda assim, como já havia acontecido, o motociclista foi surpreendido pela imprudência alheia. Novamente, numa rua do Jardim Cafezal, o rapaz foi "fechado" por um carro, perdeu o equilíbrio e foi arremessado da moto. O episódio não teve a mesma gravidade do primeiro. Oliveira sofreu apenas escoriações na perna esquerda, sem nenhuma sequela. No entanto, o novo susto foi interpretado como um aviso. "O médico praticamente me proibiu de continuar andando de moto e eu pensei bem e concordei com ele. Não dá mais."
Dois meses depois de subir pela última vez numa motocicleta, ele tem como prioridade a venda do veículo. "Acho que a compra de uma moto não é uma boa opção. Ninguém está seguro numa moto. Mesmo quando você é cuidadoso pode acabar se dando mal por causa dos outros", disse ele, vítima duas vezes da imprudência de outros motoristas. "É como dizem por aí: o para-choque do motoqueiro é o corpo. Sem contar que o pessoal das motos abusa, são imprudentes."
Ele acredita que a maioria dos motociclistas não possuem consciência do risco de se acidentar gravemente e acabam adquirindo o veículo por economia. "A maioria das pessoas não tem como comprar um carro e depois mantê-lo", opina. (L.F.M.)





