TRABALHO INFANTIL - 'Fico cansada, mas não tem outro jeito'
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sábado, 14 de julho de 2012
Carolina Avansini <br> Reportagem Local 
Londrina - Aos 14 anos, o adolescente João (nome fictício) enfrenta diariamente a rotina pesada de trabalho ao lado do tio, que é pedreiro e atualmente faz a reforma de um galpão em Londrina. ''Aqui eu faço a faxina, a pintura, coloquei as calhas e de vez em quando bato concreto na betoneira'', conta ele, que, nos últimos três anos acumula um histórico de abandono dos estudos.
Matriculado no sexto ano e com boas notas no boletim, o menino deixou a escola pela segunda vez, no início do ano, por problemas familiares. Pela segunda vez, também, está precocemente inserido no mundo do trabalho, o que, para os parentes, ''é melhor do que ficar na rua e não fazer nada''.
Todos os dias, João começa a trabalhar às 9 horas e vai para casa por volta das 16 horas. Pelo serviço prestado, recebe R$ 35 diários. Ele conta que quando pediu transferência na escola onde estudava tinha planos de se mudar para a casa do pai, em outro Estado. Como a mudança não deu certo, tentou retomar os estudos mas não conseguiu a matrícula.
''Disseram que eu estava reprovado por faltas. Tentei em outra escola, com a transferência, mas não também não aceitaram'', relata João, a quem restou a alternativa de ajudar o tio na prestação de serviços como pedreiro ou mesmo na roçagem de terrenos. O pequeno trabalhador conta que sente tonturas, taquicardia e às vezes passa mal quando está em casa.
''Fui ao posto de saúde e o médico me deu uns remédios, mas não melhorou'', lamenta o menino, que também convive com o excesso de peso. Ele conta que ainda mantém o sonho de chegar ao ensino superior, mas, a cada dia que passa, parece se afastar um pouco mais desse caminho. ''O difícil é a gente saber levar direito a nossa vida.''
Trabalho doméstico
Na rotina de Julia, Marina e Luiza (nomes fictícios), todas com idade entre 12 e 13 anos, as brincadeiras de boneca e casinha foram precocemente substituídas por obrigações com casas e crianças de verdade. Moradoras de um bairro carente de Londrina, as meninas são as responsáveis por fazer todo o serviço doméstico de suas residências. Acumulam, ainda, a responsabilidade de cuidar dos irmãos menores, aumentando as estatísticas sobre o trabalho infantil no Brasil.
''Às vezes fico cansada, mas não tem outro jeito, eu tenho que fazer o serviço'', resigna-se Julia, que assumiu a responsabilidade aos 11 anos e, atualmente, limpa a sala, a cozinha, o quintal, o próprio quarto e ainda guarda a louça da casa enquanto a mãe trabalha. Fora isso, é a responsável por cuidar do irmão de três anos. ''Chego da escola ao meio-dia e vou acabar as obrigações lá pelas cinco horas. Algumas vezes acabo faltando nas aulas do projeto e fico chateada (ela frequenta atividades em um projeto social próximo de sua casa).''
Das lembranças ruins, ela recorda do período em que tinha cáries, sentia muita dor e pingava analgésicos direto nos dentes para conseguir terminar o trabalho. Outra queixa diz respeito à escola, onde muitas vezes chega cansada e sente tonturas.
Luiza, por sua vez, tem um ''segredo'' para enfrentar o serviço doméstico: ''Coloco uma música para cansar menos'', ensina a pré-adolescente, que faz toda a limpeza da casa e ainda lava a própria roupa para não sobrecarregar a mãe, que trabalha de diarista em outras casas de família.
Marina tem uma rotina bem parecida com a das amigas. A única diferença é que, quando precisa realizar o trabalho doméstico e ainda cuidar do irmão de um ano e quatro meses, conta com a ajuda da irmã de 8 anos. ''Levanto às 8 horas e termino tudo ao meio-dia, quando me arrumo para a escola. O que menos gosto de fazer é lavar a roupa'', conta a garota, que ainda cozinha e, diariamente, expressa o cansaço em frente aos professores. ''Às vezes minha mãe exagera um pouco, mas é que ela sempre tem muita coisa para fazer'', admite.
Tanto o trabalho doméstico como as atividades desenvolvidas na construção civil constam da Lista das Piores Formas de Trabalho Infantil (Lista TIP) aprovada pelo gaoverno federal em 12 de junho de 2008, por meio do decreto nº 6.481. Enquanto o trabalho na construção civil ocupa o 58º lugar, os serviços domésticos estão na 76 posição, entre 93 descrições das atividades mais nocivas a crianças e adolescentes.


