Os exploradores da pedreira dizem estar acostumados com os acidentes de trabalho. Para eles, é normal um operário cortar a perna ou outra parte do corpo com uma pedra, assim como é comum alguém fraturar algum osso após ser atingido por blocos de rocha. Também faz parte da lista de lesões as dores de coluna provocadas pela posição curvada.
‘‘Todo dia a gente vê um sanguinho num amigo’’, comenta Vivaldino Alves Lopes, 46 anos, mostrando a perna com várias cicatrizes. Segundo ele, os cortes foram provocados por pedregulhos que se soltaram em um golpe de marreta. Outro problema são as quedas de 10 a 15 metros envolvendo os marroreiros que trabalham sem proteção.
Além de não receberam ajuda médica (como atendimento de primeiros socorros), os acidentes resultam em prejuízos no bolso por causa do tempo sem trabalhar. Após quebrar a perna no ano passado, João José Ferreira Barbosa, 72 anos, ficou sem cortar pedra por um mês. ‘‘Voltei rápido ao serviço. Gente de idade como eu se ficar parada em casa o corpo enrola rapidinho, além de não ter o ganha-pão’’, justifica.
A indignação do grupo aumenta quando as marcas viram sequelas. E quando resultam em morte, como a de José Maria Rocha dos Reis, é motivo para demonstrar a humildade do pai da vítima. ‘‘Dói menos saber que meu filho morreu aqui e não nas mãos de bandidos’’, confessa Manoel Francisco dos Reis, que incentivou o jovem, então desempregado, a ingressar na profissão.
Pai de outros 12 filhos, Manoel lamenta a falta de atenção por parte dos políticos. Na opinião dele, os operários são lembrados somente em épocas de eleição, quando os candidatos pedem votos e prometem ajuda. ‘‘Quando o José morreu, recebi apenas um caixão para enterrar o corpo e nada mais’’, lembra. ‘‘Apesar das dificuldades, tenho que continuar porque preciso de dinheiro’’.
O administrador da pedreira rebateu as acusações dos marroeiros sobre a falta de segurança no local e exploração de mão-de-obra barata. Há 4 anos no ramo, Selvino Kronppauer, 41 anos, afirmou que os homens trabalham como autônomos e disse oferecer serviço para quem não tem emprego. ‘‘Eu ajudo quem está precisando’’, ponderou.
Kronppauer afirmou que tem atendido algumas das reivindicações dos operários, com o fornecimento de cordas e ferramentas (marretas e martelos), além de conceder o reajuste salarial há um ano. Quanto aos demais equipamentos de segurança, sustentou que não tem condições para comprar o material de proteção. ‘‘Ganho um pouquinho em cima com frete’’.
Ele admitiu a falta de licença para explorar a área, porém sustentou que ‘‘o pessoal da prefeitura ofereceu a pedreira’’. ‘‘Falei com o doutor Volpi (Luis Roberto, então diretor da Secretaria Municipal de Obras e Urbanismo) há alguns anos. Ele disse para eu ir lá embaixo no Porto Belo e ir cortando as pedras’’.
Volpi é o atual secretário de Obras. Ele apresentou uma versão diferente. ‘‘Lá tem um pessoal que retira (pedra) por conta de risco. Eles não têm autorização do município para exploração. É economia informal’’, contrapôs, frisando que a prefeitura não compra dos marroeiros. ‘‘O município compra pedra de empreiteiras. Se elas estão comprando de lá, a gente pode até levantar’’. (A.P.).

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