Queda de juros, IPI reduzido, vendas parceladas em muitas prestações mensais. Em tempos de crise econômica internacional, o governo brasileiro lançou várias medidas para incentivar o consumo interno e, assim, manter a economia aquecida apesar da conjuntura mundial desfavorável. Bancos, montadoras, revendas de automóveis e o comércio em geral aproveitam o momento e investem pesado em estratégias de marketing para encantar os consumidores. Mas, afinal, as vantagens são válidas para todos?
Especialistas ouvidos pela FOLHA avaliam que os incentivos são bons para a economia do País em geral. Individualmente, porém, os consumidores devem analisar a própria renda e capacidade de endividamento antes de decidir sobre empréstimos e financiamentos. ''A inadimplência está subindo porque as pessoas comprometem parte significativa da renda em dívidas'', avalia Julio Suzuki, diretor de pesquisas do Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social (Ipardes).
Segundo ele, a queda no custo do crédito e a desoneração tributária são fatores importantes para garantir o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) projetado para 3% em 2012. ''Não é a taxa desejável, mas é mediana'', opina Suzuki, enfatizando que o momento é bom para comprar, desde que o consumidor não perca de vista os próprios rendimentos.
Ana Paula Mussi Cherobim, coordenadora do Laboratório de Finanças Pessoais do Departamento de Administração da Universidade Federal do Paraná (UFPR), concorda que as medidas são positivas do ponto de vista macroeconômico, mas reforça que o marketing é maior que o real impacto dos incentivos no orçamento das famílias. ''A queda nos juros é significativa, mas as taxas continuam altas'', comenta, acrescentando que poupar para comprar a vista ou, pelo menos, com uma boa entrada, ainda é mais vantajoso do que comprometer o orçamento com compras em muitas parcelas acrescidas de juros.
O financiamento de um automóvel cujo preço caiu por causa da redução do IPI, por exemplo, é vantajoso para as famílias que possuem um carro usado que gera custos altos de manutenção. ''Nesse caso, vale a pena aproveitar os incentivos e fazer um financiamento. O ideal é garantir uma boa entrada para pagar menos juros'', orienta.
Trocar uma dívida ''cara'' por outra mais barata, aproveitando que a concorrência entre os bancos colocou no mercado operações com taxas de juros mais atraentes, é outra possibilidade para reduzir o endividamento. ''No caso do crédito consignado, é possível negociar com alguns bancos e fazer a troca entre produtos da própria instituição financeira'', diz Ana Paula.
A dívida do saldo devedor do cartão de crédito, responsável pelo descontrole financeiro de muita gente, também pode ser amortizada pela quitação do valor devido integralmente através da contratação de um crédito pessoal, que tem taxas mais atrativas. ''É essencial parar de usar o cartão até quitar o empréstimo pessoal'', ensina a especialista, lembrando que são consideradas dívidas de cartão de créditos as faturas que não são pagas integralmente no prazo.
Com relação a financiamentos habitacionais, o mais importante é ter uma perspectiva de como será a vida durante o período de pagamento das parcelas, que pode se estender por até 30 anos. ''Também nesse caso, o orçamento familiar deve ser bem avaliado para evitar inadimplência'', afirma Ana Paula.
Suzuki acrescenta que, no setor de habitação, os juros oferecidos pelo mercado são fixos, o que aumenta a possibilidade de prever o investimento ao final do processo. ''Principalmente com relação aos produtos voltados à população de baixa renda, as medidas são mais sociais que econômicas, apesar do impacto na economia em geral.''

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