Veridiana, de 6 anos, e Catarina, de 9, são filhas de mãe branca e pai negro. Educadas, alegres e cheias de energia, comportam-se como todas as crianças da mesma idade, mas enfrentam tratamento diferente nos passeios em que estão acompanhadas apenas pelo pai. A mãe das duas, a psicóloga Ana Lilian Parrelli, coleciona histórias de racismo velado envolvendo desde conflitos na escola até o episódio da vizinhança de uma área de lazer de Londrina que chegou a chamar a polícia quando viu as duas meninas passeando sozinhas com o pai no local.
Ana conta que o estranhamento das pessoas é quase uma rotina.''Quando elas estão comigo, o tratamento é normal. Se estão com o pai, as reações são diversas. Tem gente que entra em casa ou muda de lado na rua'', revela, enfatizando que o pai das crianças tem vários relatos de situações enfrentadas também quando está sozinho. ''No banco, a porta eletrônica trava mesmo quando ele não está portando objetos de metal'', exemplifica.
A mãe também nota diferença no tratamento dispensado às filhas. Enquanto a mais nova tem cabelos lisos, a primogênita tem cabelos bem enrolados, o que chegou a gerar apelidos maldosos colocados por crianças da escola. ''Percebi que a própria criança não tinha noção, apenas reproduzia o que ouvia dos pais'', diz, lembrando que uma estagiária da escola chegou a pedir à menina, de forma ríspida, para prender o cabelo.
Catarina se incomodava tanto com a situação que, quando mais nova, pedia à mãe para trocar de escola. Recentemente, convenceu a família a fazer um relaxamento nos cachos em uma tentativa de sentir-se menos diferente. ''Eu me incomodo porque meus amigos acham meu cabelo estranho'', conta.
Em casa, a conduta da mãe é reforçar a cultura do respeito às diferenças para ensinar as filhas a lidar com a questão. Os conflitos, entretanto, acabam surgindo a cada vez que o racismo velado aflora no compartamento das outras pessoas. ''Nessas horas, fica complicado passar essa noção de respeito, dizer que as pessoas são boas'', lamenta. Convicta da importância de enfatizar a diversidade, Ana procura tirar o foco das diferenças de cor para reforçar as vantagens de não sermos todos iguais. ''Ser diferente não é ruim. É o que caracteriza a nossa identidade.''(C.A.)

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