TDAH - Brasil é 2º maior consumidor de remédio
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domingo, 23 de dezembro de 2012
Carolina Avansini <br> Reportagem Local 
Crianças agitadas, que preferem conversar com os amigos ao invés de prestar atenção no professor, com dificuldade de se concentrar, que muitas vezes tumultuam a sala de aula e deixam os pais cansados na rotina de cuidados diários são cada vez mais rotulados como portadores de uma doença que já foi absorvida pelo senso comum como sinônimo de meninos e meninas que destoam do comportamento padrão esperado pelos adultos. Tratam-se dos ''hiperativos'' ou portadores do Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH).
O grande número de diagnósticos da doença no Brasil posicionou o País como segundo maior consumidor mundial de metilfenidato, um psicofármaco usado para tratar TDAH. Levantamento do Instituto de Defesa dos Usuários de Medicamentos aponta, também, que a venda do produto nas farmácias brasileiras aumentou quase três mil por cento em uma década. Enquanto em 2000 foram comercializadas 71 mil caixas do produto, em 2010 foram vendidas 2 milhões de caixas. Dados coletados pela Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo indicam aumento notório de prescrição do remédio também na rede pública. Em 2009, foram dispensados 113 mil comprimidos, subindo para 180 mil em 2010 e com estimativa de ter alcançado 360 mil comprimidos no ano passado.
Os dados foram repassados pela professora titular do departamento de Pediatria da Universidade Estadual Paulista (Unicamp), Maria Aparecida Affonso Moyses, que considera essa realidade ''complicada de aceitar''. ''Não há crescimento similar em qualquer outro medicamento ou doença no mundo'', diz ela, para quem os números indicam, na verdade, um exagero no diagnóstico de TDAH. ''A maior probabilidade é que sejam crianças e adolescentes normais, mas que não se adequam ao que os adultos esperam deles e acabam rotulados.''
A preocupação com o grande número de meninos e meninas utilizando o metilfenidato mobilizou, inclusive, o Senado Federal, onde tramita projeto de lei da senadora Angela Portela (PT-RO), que visa instituir medidas destinadas à prevenção do uso inadequado de psicofármacos em crianças e adolescentes. O texto propõe a proibição da medicalização psicofarmacológica ''indiscriminada, inadequada, desnecessária ou excessiva''. Em caso de comprovada necessidade dos remédios, a prescrição deve ocorrer em conformidade com os protocolos clínico-terapêuticos aprovados pelo Ministério da Saúde ou por entidade por ele designada.
''Acreditamos que poderosos interesses econômicos de laboratórios farmacêuticos reforçam a tendência de profissionais de saúde e de educação transformarem um problema não médico, da área de aprendizagem ou comportamento, em um problema biológico do indivíduo, com causa e solução médica'', justifica a senadora. Segundo ela, outra causa ''hipotética'' é que as pessoas estariam ficando mais intolerantes com a normal inquietação motora das crianças.
A pediatra Maria Aparecida não nega que os comportamentos alterados - e diagnosticados como TDAH - existam. O questionamento dela é que tratam-se de comportamentos produzidos socialmente, reflexo de fatores diversos como submissão à violência e de uma sociedade cujos valores são substituídos pelo consumismo. ''Os diagnósticos não consideram o contexto em que vive aquela criança'', enfatiza, lembrando que os pais, seduzidos pela possibilidade de melhorar o comportamento e a aprendizagem dos filhos com um remédio ''maravilhoso'', acabam aceitando a prescrição sem questionar.
As consequências da suposta medicalização, segundo ela, vão desde os efeitos de um estimulante no sistema nervoso central do paciente até a introjeção, pela criança, de que é uma pessoa doente e que tem responsabilidade sobre isso. ''A medicalização muda a relação com a vida. Hoje, não existem mais pessoas tristes, todas são deprimidas'', exemplifica.
Maria Aparecida integra o Fórum sobre Medicalização da Educação e da Sociedade, um grupo organizado em 2010 e que congrega 47 entidades brasileiras. Durante o mês de novembro, a entidade promoveu, em algumas cidades do País, eventos que visam discutir a medicalização, definida como ''o processo em que as questões da vida social, sempre complexas, multifatoriais e marcadas pela cultura e pelo tempo histórico, são reduzidas à lógica médica, vinculando aquilo que não está adequado às normas sociais a uma suposta causalidade orgânica, expressa no adoecimento do indivíduo''.


