Tatuadora ajuda a empoderar vítimas de violência
Pouco mais de um ano atrás, a recepcionista Aline Garcia, então com 28 anos, voltava do trabalho, em Curitiba, quando foi golpeada pelo ex-namorado, Joaquim Barbosa Martins. Após acertar oito facadas na jovem, deixando-a entre a vida e a morte por dez dias, ele jogou a moto que pilotava na frente de um caminhão, no Contorno Norte (rodovia que corta a capital). O veículo explodiu e o corpo do rapaz foi partido ao meio. "O que aconteceu comigo é uma coisa que já está se tornando comum: os homens não estão aceitando o fim dos relacionamentos, nem que as mulheres estão mais independentes", afirma.
Enquanto ainda buscava superar algumas das marcas deixadas pela brutalidade que sofreu, Aline se deparou com um post da prefeitura da cidade na rede social Facebook, destacando o trabalho da tatuadora Flávia Carvalho. Por meio do projeto "A Pele da Flor", ela se dedica a resgatar a autoestima de mulheres vítimas de violência. "Uma cliente minha veio cobrir uma cicatriz no abdome, há dois anos. Depois que eu criei o desenho, ela me contou que foi golpeada com um canivete num bar, por um rapaz. O cara foi morar em outra cidade e ficou por isso mesmo. Mas ela tinha a cicatriz e uma vergonha grande de usar biquíni ou blusa que aparecesse", conta.
Foi então que surgiu a ideia e, na sequência, uma verdadeira peregrinação em busca de financiamento. "A cobertura de cicatriz é cara. Imaginem o tanto de mulher que sofre violência doméstica e que não tem condições de pagar. Pensei em usar a tatuagem como ferramenta para empoderar essas mulheres", diz Flávia, que faz questão de se colocar como feminista. Diante da negativa de organizações que trabalham com o tema em apoiar a iniciativa, a tatuadora foi procurada pela Secretaria Municipal da Mulher, no final de julho, e engatou uma parceria. Como ainda restam alguns trâmites para a liberação da verba relativa ao projeto, contudo, por enquanto ela tem atuado de maneira voluntária.
"Eu hoje estou muito mais consciente do que aconteceu, superei várias barreiras e até um princípio de depressão. Já aceitei as marcas que ficaram no meu corpo. Agora, com a tatuagem, estou 100%", comemora Aline. A imagem escolhida por ela para a coxa esquerda, de um lobo com uma mulher de perfil e cabelos cacheados, simboliza a força feminina. Nada mais propício para quem deseja, ao lado dos filhos, "levantar a cabeça e seguir em frente". O estúdio Daedra Art & Tattoo fica na Rua 13 de Maio, no centro de Curitiba. A profissional lembra, porém, que o "A Pele da Flor" é exclusivo para vítimas de violência ou para mulheres que fizeram mastectomia (remoção de mamas). (M.F.R.)





