O ano de 2012 foi especial na vida escolar de Cecília Valéria Feliciano, de 16 anos, aluna do ensino médio do Colégio Estadual José de Anchieta, de Londrina. Pela primeira vez, ela passou a ter constantes oportunidades de se sentir entre iguais. A jovem integra um grupo de 80 alunos atendido no Núcleo de Atividades de Altas Habilidades/Superdotação (NAAH/S), implantado em 2011 no Colégio Estadual Vicente Rijo. O trabalho desenvolvido em Londrina é precursor no Estado de um tipo de atendimento a alunos com necessidades educacionais especiais que agora também chegou ao Senado, por meio de Projeto de Lei (PLS) aprovado recentemente.
O PLS nº 254, de autoria do Senador Marcelo Crivella, prevê, além da identificação, o atendimento e a criação de um de cadastro nacional de estudantes com altas habilidades. O texto não define critérios nem quem serão os responsáveis pela formação do cadastro, em uma demonstração de que o assunto não está devidamente amadurecido no País.
A coordenadora geral do NAAH/S de Londrina, Fabiane Chueire Cianca, concorda que ainda há questões a serem esclarecidas. Ela cita o ponto em que o projeto fala que um dos objetivos é ''a identificação precoce e a lapidação de talentos, bem como transformar promessas e potenciais em realizações e feitos extraordinários para o País''.
Segundo Fabiane, o diagnóstico da superdotação deve ser feito preferencialmente entre os nove e dez anos, pois antes disso há o risco de confundir com precocidade, mas cada caso tem características particulares. A educadora também argumenta que, mais do que ''feitos extraordinários'', o compromisso maior deve ser com a realização e satisfação interna do aluno. Outra preocupação é com o risco de rotular estas crianças e jovens. ''Muitos têm medo de que, ao serem identificados como superdotados, passem a receber cobranças, perder amigos e sentirem-se diferentes do grupo'', explica Fabiane.
Nos NAAH/S - que foram lançados pelo Governo federal em 2005, mas só tiveram o funcionamento autorizado em dezembro de 2010 - a intenção é justamente fazer com que o aluno sinta-se acolhido e possa desenvolver suas habilidades, por meio de atividades no contraturno escolar.
Cecília Feliciano participa das oficinas de Física, Música, Matemática e Biologia e afirma que, embora as oficinas não reflitam muito no seu desempenho escolar, elas têm contribuído para melhorar suas relações pessoais. ''Aqui conhecemos gente como nós, que se interessam pelas mesmas coisas.''
A adolescente confessa que gostaria de ter vindo antes para o grupo, mas relutou no início. ''Em 2009 fui recomendada para o projeto (na época, a escola já abrigava Salas de Recursos para Altas Habilidades/Superdotação), mas achei que isto aqui não era para mim. Eu tinha uma ideia errada, achava que os superdotados eram aquelas crianças que cursavam faculdades de Direito. Não vim antes por falta de conhecimento'', reconhece Cecília.
Um dos alunos mais empolgados com o projeto é Lucas Hilário de Lima, 17 anos. Aluno do Colégio Estadual Barão do Rio Branco, ele começou a frequentar as Salas de Recursos em 2006, na disciplina de matemática. Hoje, ele se identifica com a área de biológicas e frequenta as oficinas de Música e Libras. ''Aqui a gente abre a mente. As atividades desenvolvem o nosso potencial de uma forma que só com as aulas regulares não seria possível. Quem não conhece o projeto não imagina como o nosso potencial é valorizado aqui'', elogia Lucas.
Apesar do reconhecimento de alunos e educadores aos benefícios do trabalho realizado no NAAH/S, a Secretaria de Educação do Estado do Paraná não informou se há intenção de implantar mais núcleos no Estado. Ao ser questionada sobre o assunto, a técnica pedagógica do Departamento de Educação Especial e Inclusão Educacional (Deein) da Seed, Denise M. Matos Lima, informou apenas que a secretaria vem ampliando o número de atendimentos especializados. Segundo ela, atualmente são 41 salas de recursos atendendo 543 estudantes da rede pública estadual.
Denise Lima lembrou que, de acordo com dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), de 3% a 5% da população mundial possui inteligência superior. Tomando por base estes índices que, para os pesquisadores, são considerados abaixo do real, a quantidade de alunos superdotados é muito superior ao número dos que estão sendo atendidos.

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