Assumir uma vida de solteiro pode significar também encarar a tarefa de decorar o próprio apartamento. Encarar essa aventura de ‘‘organizar’’ um ambiente sem ter a obrigação de agradar ninguém, a não ser a si mesmo, é um exercício de auto conhecimento.
Nas grandes cidades, as construtoras apostam no mercado dos singles, edifícios destinados à pessoas solteiras, com projeto especial, lavandeira coletiva e outras facilidades. Em Londrina, alguns prédios com estas características começam a ser ocupados.
Para o arquiteto Ricardo Dias, a maioria dos edifícios da cidade, porém, têm características voltadas para às necessidades das famílias. ‘‘É muito difícil encontrar apartamentos para pessoas solteiras. Essas pessoas não precisam de muitas portas e paredes. O espaço pode ser aberto, com vários ambientes’’, diz.
Seja qual for a escolha, o primeiro determinante para um projeto de arquitetura de interior é a condição em que o imóvel vai ser ocupado, de forma temporária ou definitiva.
O segundo passo é unânime entre os profissionais do ramo: consultar um arquiteto. ‘‘O leigo tem dificuldade em fazer uma interpretação. O espaço deve ser bem aproveitado e o arquiteto tem essa noção’’, orienta Ricardo. O arquiteto de interiores Marcelo Melhado, também acredita na importância do acompanhamento profissional. ‘‘Primeiro a pessoa deve consultar a si mesma, sonhar sem pensar muito em dinheiro. Depois falar com um arquiteto, que vai partir da racionalidade. Um espaço bem elaborado custa o mesmo do que um espaço montado de qualquer jeito’’, afirma ele. A cozinha é um dos principais focos de atenção para arquitetos e clientes.
A jornalista Teresinha Godoy, a Tereco, conseguiu realizar o sonho do apartamento próprio. Solteira convicta, ela já tem o projeto de interior que pretende executar aos poucos, conforme as condições financeiras. O primeiro passo foi aumentar e trocar pisos e azulejos da cozinha. O apartamento, um duplex de um quarto, será decorado com poucos elementos para que o espaço seja valorizado. ‘‘Quero um lugar agradável que tenha a minha cara. Vou comprando os objetos devagar’’, conta Tereco. ‘‘Uma casa nunca acaba de ser montada. E quanto mais rico é o seu repertório, mais fácil é para o arquiteto deixar o projeto legal’’, acrescenta Marcelo Melhado.
Para ele, morar sozinho é dar asas às próprias manias. Porém, o morador deve checar as suas prioridades. Se o espaço foi improvisado, o melhor é optar por peças soltas que podem ser reaproveitadas. Segundo ele, é necessário ter critério para escolher os objetos e preocupação com o equilíbrio de cores e têxturas. Os conselhos são: usar cores claras, criar uma boa iluminação, pendurar os quadros na altura certa, utilizar plantas, valorizar o espaço com peças alternativas - como sofá-cama, poltrona e mesa redonda - e não dispensar um espelho que dá a noção de amplitude. ‘‘O bom resultado é uma mescla de tudo’’, resume ele.
Marcelo mora sozinho em um apartamento de dois quartos e experimentou a sensação de decorar a própria casa. Em um ano ele ‘‘desmontou’’ e montou o local de acordo com seu estilo de vida. Os materiais - pedra mineira, tecidos e couro - estão em total equilíbrio. É na sala que estão os objetos que ele mais gosta. Uma cadeira Le Corbusier, arquiteto modernista, e peças desenhadas por ele mesmo.‘‘As pessoas têm que curtir esse momento. Isso é um privilégio de quem sabe organizar as idéias e as finanças’’, afirma.
Na opinião de Ricardo Dias, a mobília deste tipo de apartamento deve ser flexível, já que o solteiro ‘‘carrega a casa junto’’ sempre que se muda. ‘‘É importante ir à uma boa loja onde você encontra variedade de tamanho, objetos fáceis de desmontar e transportar’’, recomenda. Os materiais mais indicados são madeiras leves, vidros e metálicos. Para Ricardo, o apartamento deve ter o ‘‘menos possível’’: a cama se transforma em sofá, a mesa se encaixa na parede e o guarda-roupa tem porta de correr. ‘‘O que vai decorar a casa não é o excesso, é o objeto. ‘Aquela’ cadeira legal vai ser seu objeto de decoração’’, diz.
Na concepção do arquiteto Sérgio Ricardo Gogel, os ambientes conjugados são ideais para apartamentos de solteiros. ‘‘Geralmente são pessoas jovens que querem liberdade e gostam de receber os amigos. Pode-se ter uma cozinha aberta para a sala. É uma tendência hoje’’, explica. Para isso, o mercado oferece uma infinidade de opções em pisos, pinturas e revestimentos, o que pode baratear a produção. A outra orientação do arquiteto vai para os compradores dos apartamentos com plantas flexíveis. ‘‘Ele não precisa usar todos os quartos. Pode unir dois cômodos e, se possível, fazer um banheiro maior e mais confortável. Com a ajuda do arquiteto, o cliente pode adaptar o apartamento ao seu estilo de vida’’, conclui ele.

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